- O Brasil, enfim, assina a Lei Áurea. A escravidão, essa mancha que definiu a nação por mais de trezentos anos, está… no papel… abolida.
Um ano depois. 1889.
O Imperador é deposto, a família real é colocada num navio e exilada, e o Brasil acorda sendo uma República.
A história que nos contam nos livros didáticos, a história que celebramos nos feriados, é a de uma progressão. Um avanço. A Monarquia, velha e cansada, cai. A República, moderna e cheia de esperança, nasce.
Mas… e se essa narrativa for, na melhor das hipóteses, incompleta?
E se a proximidade dessas duas datas… 1888 e 1889… não for uma coincidência feliz, mas a chave para entender a maior tragédia da nossa fundação?
A pergunta que fica, e que o Brasil tenta evitar há mais de um século, é: o que nasce em 15 de novembro é uma revolução… ou é um rearranjo pra que nada, no fundo, mudasse?
A primeira pista… a mais óbvia… está na reação popular. Ou melhor, na ausência dela.
O jornalista Aristides Lobo, uma testemunha ocular daquele dia 15 de novembro, cunhou a frase mais devastadora e honesta sobre o evento. Ele disse que o povo assistiu àquilo… “bestializado”.
Atônito. Surpreso. Sem compreender o que se passava.
Uma revolução, por definição, pressupõe o povo. Pressupõe uma convulsão social, uma demanda popular por mudança. A Revolução Francesa teve a queda da Bastilha. A Revolução Americana teve a declaração de independência ecoando nas ruas, nas colônias.
O Brasil?
O Brasil teve um desfile militar no Campo de Santana, no Rio de Janeiro.
Uma revolução não acontece enquanto a população dorme. Um golpe, sim. O que aconteceu no Brasil foi um putsch militar. O Marechal Deodoro da Fonseca, amigo pessoal do Imperador, foi convencido na última hora a liderar as tropas. Não houve povo. Houve quartel.
Mas por que os militares fizeram isso? E, mais importante: por que naquele momento?
O exército vinha de uma guerra vitoriosa no Paraguai. Eles voltaram se sentindo fortalecidos, mas politicamente desprestigiados pelo poder civil, pelo Império. Havia, claro, a forte influência das ideias positivistas de “Ordem e Progresso” entre os oficiais. Eles queriam um governo “científico”, técnico.
Mas o exército, sozinho, talvez não tivesse tido sucesso. Eles precisavam que a principal base de sustentação da Monarquia ruísse.
E essa base… eram os grandes proprietários de terra. Os “barões do café”. A elite agrária escravocrata.
Pensa comigo.
Durante décadas, o Império de Dom Pedro II se equilibrou em cima de dois pilares: o exército e essa aristocracia rural.
Em 13 de maio de 1888, um ano e meio antes da República, a Princesa Isabel assina a Lei Áurea.
Foi um ato humanitário? Sim. Foi um ato desesperadamente tardio? Com certeza. O Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão.
Mas, politicamente, aquele 13 de maio foi um terremoto.
A abolição veio sem a indenização que os donos de escravos exigiam. Eles não se conformavam em perder o que consideravam sua “propriedade”.
De repente, a elite mais poderosa do país, a elite que sempre foi monarquista por pura conveniência… se viu traída pelo Imperador. Eles se tornaram o que a história chama de “republicanos de última hora”.
O Império tinha perdido seu último pilar civil.
O caminho para o golpe militar estava livre.
A República não nasce, portanto, de um desejo de incluir o povo. Ela nasce de uma reação das elites. Ela nasce de uma aliança improvável entre militares positivistas e fazendeiros furiosos porque não podiam mais ser donos de outros seres humanos.
E aqui… aqui entra o verdadeiro drama.
Onde, nessa história, entra o negro recém-liberto? Onde entra o povo pelo qual uma “revolução” deveria ter sido feita?
A “abolição” de 1888 já tinha sido uma farsa cruel. Ela deu a liberdade legal, mas não deu terra. Não deu educação. Não deu reparação. Não deu cidadania. Foi um “se vira”.
E o que a República, esse novo regime “moderno”, faz por essa população?
Nada.
Pelo contrário. A República que nasce em 1889 é a República do “branqueamento”.
É a República que, poucos anos depois, vai criminalizar a capoeira, chamar de “vadiagem”. É a República que vai perseguir as religiões de matriz africana. É a República que vai usar dinheiro público para incentivar a imigração europeia, com o objetivo explícito de “melhorar a raça” do povo brasileiro.
A República nasce negando o Brasil real. Ela nasce excluindo ativamente aqueles que ela deveria, em tese, emancipar.
Então, voltamos à pergunta inicial. Golpe ou Revolução?
Foi um golpe.
Um golpe militar, sim, mas também um golpe civil das elites agrárias que viam na República uma forma de manter seu poder econômico e político, mesmo sem a “propriedade” humana.
Foi uma troca de comando no topo.
Nós tiramos um imperador de barba branca e colocamos um marechal de espada.
O poder real… a estrutura fundiária, o latifúndio, o racismo estrutural, a exclusão da vasta maioria da população… tudo isso permaneceu intacto.
A República nasce como um projeto de modernização sem democracia. Uma modernização para manter os privilégios de sempre, só que com uma nova fachada. Uma fachada onde a “Ordem” sempre venceu o “Progresso”.
E o legado disso… bom… o legado disso nós vivemos até hoje.
Nós vivemos num país que ainda debate o óbvio. Que ainda luta para incluir milhões de pessoas que foram “libertadas” em 1888, mas que nunca foram, de fato, convidadas a fazer parte do projeto de nação.
Nós herdamos um Estado que, em sua certidão de nascimento, foi fundado contra o povo, e não pelo povo.
Eu sei que esse é um tema pesado. E talvez seja por isso que a gente prefira o feriado, o desfile, a história simplificada. Porque olhar para essa fundação… para essa aliança entre a espada militar e o barão de terras… é doloroso.
É reconhecer que o Brasil ainda está em construção. E que a fundação foi feita em areia movediça.
Mas eu queria saber de você.
Quando você olha para o Brasil de hoje… aqui do Sul do Pará, ou de qualquer canto do país… quando você olha para as nossas instituições, para a nossa desigualdade, para quem manda e quem obedecE…
Você ainda consegue ver os ecos desse 15 de novembro?
Você sente que a gente já conseguiu, finally, transformar aquele golpe… numa revolução de verdade?
Pensa sobre isso.