Novembro chega.
E com ele, os dias de reflexão. Finados. O dia de lembrar dos que se foram. Das velas, das flores no cemitério, da saudade que aperta.
Mas… e o dia anterior? O Dia de Todos os Santos.
A tradição nos faz olhar para cima. Para os mártires, para as figuras canonizadas, para aqueles que, supostamente, transcenderam a falha humana e alcançaram a perfeição.
Mas o título da data é “Todos os Santos”.
E se… e se esse “todos”… nos incluísse?
Incluísse você. Incluísse eu.
A sugestão silenciosa do calendário é que existe uma santidade não apenas na morte glorificada, mas na própria vida. Na confusão do dia-a-dia.
A questão que fica, então… é: que tipo de santo é aquele que ainda respira? Que tipo de santo é aquele que ainda erra, que ainda duvida… e que ainda tem boletos para pagar no fim do mês?
Eu vivo em Novo Progresso. Aqui no Sul do Pará. E eu trabalho com marketing digital.
Meu ofício, no fundo, é sobre narrativa.
É sobre como construir uma percepção. Como uma empresa, ou mais e mais comum, como uma pessoa… quer ser vista. Como ela quer ser lembrada.
E quando eu olho para as redes sociais… eu vejo que nós nos tornamos, todos nós, curadores dos nossos próprios memoriais.
Pensa comigo.
O seu feed. As fotos escolhidas a dedo, os sorrisos ensaiados, as legendas cuidadosamente escritas, os certificados publicados, as férias perfeitas.
Não é esse um esforço consciente… quase desesperado… de construir um “eu” idealizado? Um “eu” filtrado. Um “eu” que merece ser lemrado.
Nós passamos a vida inteira lustrando o nosso próprio epitáfio digital, escolhendo as palavras exatas que gostaríamos que ficassem gravadas na pedra.
É uma tentativa de controle.
Se eu controlar a minha imagem agora, talvez… talvez eu controle a minha memória depois que eu não estiver mais aqui.
Esse é o “santo” digital.
Ele é imaculado. Ele é perfeitamente iluminado. Ele não tem dias ruins.
Mas ele é… fundamentalmente… frágil.
Ele depende de um servidor no Vale do Silício. Depende de uma senha que você pode esquecer. Depende da eletricidade. Se a internet acabar… ele desaparece.
Mas aqui… aqui em Novo Progresso… a realidade tem um peso diferente.
A vida aqui não é uma abstração digital. A poeira da BR-163 que entra pela janela… ela é real. O calor é real. A luta diária das pessoas que tentam construir algo num lugar que é, ao mesmo tempo, promessa e desafio… é tudo muito físico.
E morar aqui me faz pensar constantemente sobre o outro tipo de legado.
O legado analógico.
Eu lembrei de uma história. Um vizinho, da época de infância dos meus pais. Um senhor que eu mal conheci, mas de quem ouvi falar muito.
Vamos chamá-lo de “Seu Jorge”.
O Seu Jorge não tinha rede social. Provavelmente, morreu sem saber o que era o Google. Ele era carpinteiro. E, dizem, um carpinteiro apenas mediano. O acabamento dele não era o melhor.
Mas ele tinha uma coisa que hoje é artigo de luxo.
Ele tinha tempo.
E ele passava as tardes na varanda dele… consertando brinquedos velhos das crianças da rua.
De graça.
Uma roda de carrinho que quebrou. A asa de uma boneca que soltou. A perna de um cavalo de pau.
Ele não fazia isso por glória. Ele não tirava fotos do “antes e depois” para postar. Ele fazia… porque era o que ele sabia fazer. Porque ele estava ali.
Ele morreu há décadas. Ninguém vai encontrar o “perfil” dele. Ninguém vai dar “like” na sua biografia. Ele está, para o mundo digital, completamente esquecido.
Mas… outro dia, conversando com um primo mais velho, ele mencionou o Seu Jorge. Do nada.
E ele riu. Ele disse: “Cara… lembra daquele tratorzinho de madeira que o Seu Jorge consertou pra mim? Eu bati ele na guia, quebrou o eixo. E ele refez o eixo com um cabo de vassoura. Eu ainda tenho esse trator guardado.”
Eu ainda tenho.
Naquele momento… eu entendi.
O legado digital é sobre mostrar. O legado analógico é sobre fazer.
O primeiro é sobre a imagem que projetamos. O segundo é sobre o impacto que causamos.
Existe uma parábola antiga… sobre dois escultores.
Ambos foram comissionados para criar uma estátua que ficaria no topo de um templo muito, muito alto. Um lugar onde ninguém, exceto os pássaros, poderia vê-la de perto.
O primeiro escultor trabalhou rápido. Ele era um gênio da forma. Ele esculpiu a frente da estátua com uma perfeição divina. O rosto, as mãos, as dobras da roupa. Era de tirar o fôlego.
Mas… ele deixou as costas da estátua como um bloco de pedra bruta. Um bloco liso, sem detalhes.
“Por que eu me daria ao trabalho?”, ele disse aos seus aprendizes. “Ninguém vai ver. Ela vai ficar encostada na parede, lá no alto do templo. É um desperdício de tempo.”
O segundo escultor… trabalhou lentamente.
Ele esculpiu a frente. E depois, com o mesmo cuidado, com a mesma devoção, ele virou o bloco de pedra.
E ele esculpiu as costas.
Ele esculpiu cada cacho de cabelo na nuca. Cada pequena dobra da túnica nas costas. As unhas dos pés, que mal seriam vistas. Ele passou meses nos detalhes que ficariam escondidos na sombra.
O primeiro escultor riu dele. “Seu tolo. Quem vai saber? Quem vai ver o seu esforço?”
O segundo escultor parou de lixar, olhou para a sua obra, e disse, baixinho:
“Eu vou.”
Nós vivemos uma era obcecada pela frente da estátua.
O nosso marketing pessoal, a nossa “marca”… é a frente da estátua. É o que mostramos ao público. É o que queremos que seja visto, aplaudido e lembrado.
Mas a nossa santidade real… a do “santo que ainda respira”… ela mora nas costas da estátua.
Ela é feita das coisas que fazemos quando ninguém está olhando.
É o brinquedo consertado. É a palavra gentil que não foi gravada. É a honestidade quando ninguém estava fiscalizando. É a integridade que só nós mesmos… podemos testemunhar.
O Dia de Todos os Santos, “inclusive eu”, “inclusive você”… talvez não seja sobre celebrar a perfeição que um dia alcançaremos. Ou sobre a memória que vamos deixar.
A obsessão pelo legado… é uma armadilha. Ela nos tira do presente.
O “santo que ainda respira” não é aquele que se preocupa com o seu memorial. Ele está ocupado demais… vivendo.
Talvez essa data seja sobre celebrar a tentativa.
A tentativa de ser decente, hoje. A tentativa de consertar o que está quebrado. A tentativa de esculpir as costas da estátua, mesmo sabendo que a única testemunha… somos nós.
O Seu Jorge, o carpinteiro… ele não foi canonizado. Ele não está nos livros.
Mas a memória dele está viva. Não numa nuvem digital, mas num objeto físico, guardado numa gaveta. E, mais importante, ela está viva na forma de uma lembrança boa.
A memória real que deixamos não é o nosso perfil.
É a marca que deixamos no outro. É a saudade. É o amor.
E isso… isso não cabe num servidor. Isso é analógico. É de carne, osso e poeira.
E eu te pergunto…
No seu dia-a-dia… você está mais preocupado com a frente da estátua, ou com as costas?
Você está ocupado construindo o seu perfil… ou você está consertando brinquedos?
Me conta aqui nos comentários… qual foi a pequena ação, que talvez ninguém tenha visto, que mais te deu orgulho de quem você é?