Chega o dia dois de novembro.
No Brasil, o ar pesa. O silêncio nos cemitérios é quase uma obrigação moral. Vestimos cores sóbrias, levamos flores que murcham, acendemos velas que choram cera quente. E sentimos culpa se, por acaso, um sorriso escapar no dia errado.
A milhares de quilômetros daqui, no México, o mesmo dia explode em cores. Laranja. Rosa choque. Amarelo vibrante. Caveiras de açúcar são devoradas por crianças, enquanto adultos brindam com tequila nos túmulos enfeitados. A música não para.
A morte… é a mesma. O luto, não.
E isso me fez pensar. Nós, aqui… e eles, lá… estamos todos tentando honrar quem partiu. Mas qual dessas formas de lembrar… qual delas realmente serve a quem morreu? E qual serve apenas a nós?
Aqui onde eu moro, em Novo Progresso, no sul do Pará, o Finados tem uma identidade muito clara. É um dia de introspecção. É um dia de saudade. Como professor, eu observo os rituais. Como profissional de marketing, eu observo até a economia desse dia.
As floriculturas vendem massivamente crisântemos e gérberas brancas. As lojas de velas esgotam seus estoques. O comércio do Finados brasileiro é um comércio sóbrio. Um comércio que vende… respeito. Mas um respeito que se traduz em silêncio, em cores lavadas. Em símbolos do fim.
A nossa cultura, profundamente marcada por um catolicismo europeu mais austero, nos ensinou que a morte é um vale de lágrimas. Que a perda é uma tragédia… e que a alegria, perto da memória da morte, é quase um desrespeito.
Nós nos tornamos reféns de uma performance social da tristeza.
Eu me lembro perfeitamente do velório de um tio muito querido. Minha prima, devastada, dizia em prantos: “Eu nunca mais vou conseguir rir”. E ela parecia… convicta daquilo. Como se a risada fosse, a partir daquele momento, uma ofensa direta à memória do pai.
Levou anos. Anos. Para ela se permitir uma gargalhada em público, numa festa de família, sem que um olhar de culpa atravessasse seu rosto logo em seguida.
E eu me pergunto… era isso que meu tio, um homem que adorava uma piada, que vivia com a casa cheia… era isso que ele iria querer? Que a sua partida significasse o fim da alegria de quem ele mais amava?
Nossa relação com a morte é baseada na ausência. O Finados brasileiro é um dia para sentirmos, coletivamente, o buraco que a pessoa deixou. É sobre a saudade que dói, a saudade que paralisa. E não há nada de errado em sentir isso. O luto precisa desse espaço.
O problema… é quando essa dor se torna a única narrativa permitida. Quando o luto se torna um estado permanente de vigília. Nós, no Brasil, aprendemos a cultuar a tristeza como prova de amor.
E então… olhamos para o México.
A primeira reação, para muitos de nós, é o choque. É fácil julgar. “Como podem fazer festa?” “Que desrespeito.” “Estão dançando sobre os mortos.”
Mas eu demorei a entender que o Día de Muertos não é sobre desrespeitar a morte. É sobre desrespeitar o esquecimento.
Pensa comigo.
A cultura deles, com raízes pré-hispânicas, astecas e maias, vê a morte de um jeito fundamentalmente diferente. Para eles, a morte não era um fim… era uma transição. Não era o oposto da vida; era o complemento necessário dela.
O que aquele filme famoso, “Viva”, traduziu de forma tão brilhante para o mundo… é que a “morte verdadeira” no México não é a biológica. É o esquecimento.
Você morre de verdade… no dia em que a última pessoa que se lembra de você… morre.
É por isso que a festa acontece. A festa é um ato de resistência. É um esforço coletivo e barulhento para manter os mortos… vivos.
O centro de tudo é a ofrenda. O altar. Mas não é um altar de lamentação, como o nosso. É um convite. É um banquete. Eles colocam a comida que o falecido gostava, a bebida preferida, os objetos pessoais, as fotos. Eles acreditam que, naqueles dias, os mortos têm permissão para cruzar a ponte e visitar os vivos.
E saca só… se você fosse receber a visita de alguém que você ama muito, alguém que você não vê há muito tempo… você receberia essa pessoa com choro, silêncio e tristeza?
Ou você prepararia a casa, colocaria a melhor música, faria a melhor comida, reuniria os amigos?
Os mexicanos entenderam algo que nós, talvez, tenhamos esquecido: a morte só vence… quando a vida para de celebrar.
Eles não celebram a morte. Eles celebram a vida que foi vivida. A identidade de quem se foi. A ofrenda é um catálogo de memórias. É dizer: “Nós lembramos que você odiava coentro. Nós lembramos que você fumava esse charuto. Nós lembramos daquela música que você cantava errado.”
É como se a memória fosse uma casa.
No Finados brasileiro, nós visitamos o quarto vazio da pessoa que se foi. Sentamos na beira da cama, sozinhos, abraçamos o travesseiro e tentamos sentir o cheiro que restou. É um ritual sobre o vazio.
No México, eles fazem o oposto. Eles abrem as janelas, trocam os lençóis, colocam flores frescas e coloridas, e dão uma festa na sala de estar. Eles convidam o dono do quarto a voltar e celebrar junto. É um ritual sobre a presença.
Nenhuma das duas formas está “errada”. O luto é caótico, é pessoal, não tem manual. E a introspecção… o silêncio… são fundamentais para processar a perda.
Mas talvez… nós tenhamos nos concentrado demais no ato de perder… e muito pouco no privilégio de ter tido.
O que estamos fazendo aqui no Brasil, no dia dois de novembro, é cultuar a saudade. E a saudade é, por definição, a dor da ausência. O que os mexicanos estão fazendo… é cultuar a lembrança. E a lembrança é a alegria da presença, mesmo que ela seja apenas simbólica.
Talvez o nosso maior medo não seja o da morte. Seja o do esquecimento.
E enquanto os mexicanos combatem o esquecimento com música alta, comida e cor… nós, brasileiros, muitas vezes combatemos o esquecimento… nos recusando a seguir em frente. Como se a nossa própria felicidade, a nossa própria risada… fosse uma traição a quem partiu.
Eu não sei se um dia terei a coragem de celebrar o Finados com música e caveiras de açúcar. As nossas raízes culturais, aqui no Pará, aqui no Brasil, são profundas. O silêncio também é uma forma de amor.
Mas eu começo, honestamente, a me questionar if esse silêncio absoluto… é realmente o que eles gostariam de ouvir de nós.
Eu quero te deixar com uma pergunta. Pensa com calma.
Quando você se lembra das pessoas importantes que já se foram… você acha que elas prefeririam ser lembradas com um suspiro… ou com uma boa história, talvez até uma risada?
Me conta aqui nos comentários. Como você lida com esse dia?