O PREÇO ESCONDIDO DA “MENTIRA DO BEM”

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

Sabe aquela “mentirinha branca”? Aquela pequena omissão que a gente faz pra evitar uma briga, ou aquele gatilho de escassez que você coloca no seu lançamento digital dizendo que “as vagas estão acabando”, quando na verdade o carrinho nem começou a esquentar?

Pois é. E se eu te dissesse que essa pequena exceção, esse desvio de rota que parece inofensivo, é na verdade a semente do colapso de tudo o que a gente chama de sociedade?

Parece exagerado? Talvez. Mas hoje a gente vai conversar sobre por que a regra que você quebra quando ninguém está vendo é a única que realmente importa.

Quem vive aqui, mais no interior, sabe bem o que é a poeira. A gente convive com ela. Quem mora perto de uma grande rodovia de escoamento, como a BR-163, sabe que ela não é só uma estrada; é uma artéria que pulsa, cheia de caminhões, promessas e pressa. Muita pressa.

E vivendo aqui, nessa fronteira do desenvolvimento, a gente vê de tudo. A gente vê o esforço genuíno, mas também vê o “jeitinho”. Aquele atalho que alguém pega pra tentar chegar mais rápido, atropelando o processo, atropelando a ética.

Eu sou professor de marketing. E, inevitavelmente, eu passo os meus dias ensinando técnicas de persuasão. Como convencer, como vender, como atrair. Mas existe uma linha muito tênue, quase invisível, entre persuadir alguém e usar alguém.

E é aqui que entra um sujeito que viveu muito longe da nossa realidade de poeira e asfalto, num lugar frio e meticuloso chamado Königsberg, no século 18. O nome dele era Immanuel Kant.

Kant tinha uma obsessão. Ele queria encontrar uma fórmula moral que não dependesse de religião, de cultura ou do humor do dia. Ele queria algo sólido. Matemático.

Ele chamou isso de Imperativo Categórico.

O nome assusta, eu sei. Soa como algo que a gente leria numa bula de remédio tarja preta. Mas o conceito é de uma simplicidade brutal.

Saca só o que ele dizia:

“Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.”

Traduzindo do “filosofês” para o português claro: Não faça exceções para você mesmo.

Antes de furar a fila no banco, antes de colar na prova, ou antes de dizer pro seu cliente que o produto é “exclusivo” quando tem mil unidades no estoque, você tem que se fazer uma pergunta:

“O mundo funcionaria se TODO MUNDO fizesse exatamente isso que eu estou prestes a fazer?”

Se a resposta for não, se o mundo entrasse em colapso, então você não tem o direito ético de fazer. Ponto. Sem “mas”, sem “veja bem”, sem “é só hoje”.

Agora, traz isso pra nossa realidade, pro mundo das telas, dos pixels e das vendas.

Kant tinha uma segunda formulação para esse imperativo que é um soco no estômago de muito “guru” de internet por aí. Ele dizia que nós devemos tratar a humanidade, seja na nossa pessoa ou na dos outros, sempre como um fim em si mesma, e nunca apenas como um meio.

O que isso significa na prática?

Significa que o outro ser humano não é um degrau. Não é um número numa planilha de conversão. Não é um “lead”. Ele é um fim. Ele tem dignidade.

Quando você, marqueteiro ou empresário, cria uma campanha baseada em medo fabricado, quando você explora a insegurança de alguém só para bater a meta do mês, você está tratando aquela pessoa como um meio. Você reduziu um ser humano complexo, cheio de sonhos e medos, a um cartão de crédito ambulante.

No livro “This Is Marketing” (Isso é Marketing), o Seth Godin toca numa ferida parecida. Ele diz que o marketing não é sobre usar truques para fazer as pessoas comprarem o que não querem. É sobre o ato generoso de ajudar alguém a resolver um problema.

“Marketing é a mudança generosa em favor de quem procuramos servir.”

Percebe a conexão? Godin e Kant estão falando a mesma língua, separados por séculos.

Se você precisa mentir para vender, seu produto não deveria existir. Se você precisa manipular para ser amado, esse amor não é seu.

Eu sei. É difícil.

Onde eu moro, às vezes a internet cai, a estrada fecha, as coisas demoram. A tentação do atalho é gigante. A vontade de prometer o que a gente não pode cumprir só pra garantir o contrato é humana.

Mas toda vez que a gente cede a essa tentação, a gente corrói um pouquinho da estrutura da confiança.

Pensa comigo: se todo mundo mentisse sobre a qualidade do que vende, ninguém mais compraria nada sem ver. O comércio pararia. A economia travaria. A mentira, se universalizada, destrói a própria possibilidade da verdade.

A mentira é parasitária. Ela precisa da verdade dos outros para existir. O mentiroso conta que os outros vão falar a verdade, para que a mentira dele tenha vantagem. Isso é, por definição, injusto. É querer viver com regras especiais num jogo que é coletivo.

Então, o que a gente faz com isso numa terça-feira qualquer?

A gente aplica o filtro.

O Imperativo Categórico não é uma algema; ele é uma bússola. Ele simplifica a vida. Você não precisa lembrar de qual mentira contou pra quem, se você simplesmente não mentir.

Ser ético, nesse sentido kantiano, é extremamente prático. É dormir com a cabeça tranquila, sabendo que se a sua vida fosse transmitida num telão em praça pública, você não precisaria baixar a cabeça de vergonha.

A verdadeira autoridade, seja na sala de aula, seja no Instagram, ou numa conversa de calçada aqui no interior, não vem dos números inflados ou da pose de vencedor. Vem da consistência. Vem de ser alguém em quem o outro pode confiar de olhos fechados.

Viver segundo essa regra dói. ÀsVezes significa perder uma venda. Às vezes significa pedir desculpas e admitir que errou, em vez de inventar uma desculpa esfarrapada.

Mas, no final das contas, o que sobra quando a gente desliga as telas? Sobra quem a gente é no escuro.

Eu queria deixar uma pergunta pra você hoje, não como professor, mas como alguém que também luta contra a vontade de pegar atalhos:

Qual foi a última vez que você disse “não” para uma vantagem imediata, simplesmente porque sabia que aquele não era o jeito certo de conseguir o que queria? E como você se sentiu depois?

Me conta aqui nos comentários. Vamos conversar sobre a coragem de ser honesto num mundo que premia a aparência.

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