O PODER DE DIZER “SIM” AO CAOS

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

Imagine que tudo aquilo que você mais teme… acontece.

O projeto que você demorou seis meses para estruturar desmorona na semana do lançamento. O algoritmo muda e leva embora a sua audiência. Ou talvez algo mais pessoal, mais visceral… um adeus que você não estava pronto para dar.

A nossa reação instintiva é a negação. É a raiva. É olhar para o céu, ou para a tela do computador, e perguntar: “Por que isso está acontecendo comigo?”

Mas, e se eu te dissesse que esse momento de ruptura não é um erro no sistema? E se a tragédia, o fracasso e a dor não forem obstáculos no seu caminho, mas sim o próprio caminho?

Hoje, a gente não vai falar sobre como “resolver problemas”. A gente vai falar sobre algo muito mais perigoso e necessário: a coragem de amar o problema.

Sabe… Viver aqui no sul do Pará me ensinou algo sobre a natureza que nenhum livro de marketing jamais poderia ensinar. Aqui, a poeira não pede licença. O calor não negocia. A realidade aqui tem uma textura áspera, física.

No mundo digital, a gente se acostumou com a ilusão do controle. A gente desenha funis de vendas perfeitos, cria personas ideais, agenda posts para o mês seguinte… tudo limpo, tudo previsível. Nós nos viciamos na ideia de que, se fizermos tudo certo, a vida será uma linha reta ascendente.

Mas a vida não é uma linha reta. A vida é o clima imprevisível da Amazônia. A vida é o pneu furado na BR-163 quando você está atrasado para a reunião mais importante do ano.

Existe um filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, que olhou profundamente para esse abismo da imprevisibilidade humana. Ele viveu uma vida marcada por doenças crônicas, rejeições amorosas, solidão e falta de reconhecimento profissional enquanto estava vivo. Ele tinha todos os motivos para ser um homem amargo, para rejeitar a sua existência.

Mas, em vez disso, ele cunhou um conceito que é, talvez, a ferramenta mental mais poderosa que um ser humano pode ter. Ele chamou isso de Amor Fati.

O amor ao destino.

Não é resignação. Resignação é passiva. Resignação é o animal que para de lutar porque está cansado. Amor Fati é diferente. É uma aceitação ativa, quase agressiva. É olhar para o desastre, para o caos, para a perda financeira, para a crítica injusta e dizer: “Isso pertence a mim. Isso é meu. E eu não apenas aceito isso, eu quero isso. Eu amo isso, porque isso faz parte de quem eu sou.”

Pensa comigo.

Quantas vezes, no marketing ou na vida, nós gastamos uma energia vital tentando “consertar” o passado? “Se eu tivesse investido naquele ativo…”, “Se eu tivesse postado naquele horário…”, “Se eu não tivesse falado aquilo…”.

Essa ruminação é o oposto do Amor Fati. Ela é a recusa da realidade.

Nietzsche propõe um experimento mental aterrorizante chamado “O Eterno Retorno”. Ele pergunta: você viveria a sua vida exatamente como ela é, com cada dor, cada tédio, cada momento de vergonha e cada alegria, repetidamente, por toda a eternidade? Sem mudar uma vírgula?

Se a resposta for “não”, você ainda é refém das circunstâncias. Se a resposta for “sim”, você alcançou a soberania.

Trazendo isso para o nosso ofício, para a comunicação e para os negócios… No livro O Obstáculo é o Caminho, o autor Ryan Holiday — que bebe muito dessa fonte estoica e nietzschiana — nos lembra que as grandes histórias de sucesso não são histórias de facilidade.

Ninguém para para ouvir a história do empreendedor que herdou uma fortuna, nunca errou e ficou mais rico. Isso não nos conecta. O que gera conexão, o que gera o verdadeiro pathos que tanto buscamos no marketing, é a cicatriz.

Quando você tenta esconder os seus erros, você está jogando fora a parte mais valiosa do seu roteiro. O cliente difícil te ensinou paciência e negociação. A campanha fracassada te ensinou humildade e análise de dados. O período de estagnação te obrigou a ser criativo com poucos recursos.

O Amor Fati é a habilidade de pegar o chumbo do sofrimento e transformá-lo no ouro da sabedoria. É entender que a “fricção” não é algo que atrapalha o movimento; é a fricção que permite que o pneu agarre no asfalto e o carro ande. Sem atrito, não há movimento. Sem caos, não há ordem.

Então, o que eu estou propondo aqui não é que você busque o sofrimento. A vida já vai se encarregar de trazer a dose certa de dor até a sua porta, não se preocupe.

O que eu proponho é uma mudança de postura quando a visita chegar.

Quando o algoritmo derrubar o seu alcance, não se vitimize. Diga: “Ótimo. É a oportunidade de eu testar um novo formato que eu estava com medo de tentar.” Quando a crítica vier pesada, não se esconda. Diga: “Ótimo. Agora eu sei exatamente onde a minha armadura está fraca.”

Dizer “sim” à vida é dizer sim a toda a vida. Não apenas aos momentos de “feed do Instagram”, aquelas fotos bonitas com filtro. Mas dizer sim aos bastidores bagunçados, às noites mal dormidas, à ansiedade que aperta o peito.

Nietzsche escreveu: “Minha fórmula para a grandeza no homem é o amor fati: não querer nada de diferente, nem para a frente, nem para trás, nem por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, e muito menos ocultá-lo… mas amá-lo.”

Essa é a liberdade definitiva. Porque se você ama o que acontece, ninguém pode tirar nada de você. Você se torna invulnerável, não porque nada te atinge, mas porque tudo o que te atinge serve de combustível para a sua fogueira.

É fácil falar disso quando as contas estão pagas e o sol está brilhando. O desafio é praticar o Amor Fati na segunda-feira de manhã, quando a realidade impõe o seu peso.

Mas é justamente aí que a mágica acontece. É na poeira, no calor, na dificuldade de se fazer entender, que a gente forja quem a gente é.

Eu queria deixar você hoje com uma provocação, para a gente continuar essa conversa aqui embaixo, nos comentários.

Pensa naquele evento da sua vida — profissional ou pessoal — que você sempre considerou o “pior” momento. Aquele que você tentou apagar da memória. Se você fosse obrigado a reviver esse momento eternamente, qual lição, qual força oculta você precisaria extrair dele para que valesse a pena?

Como você pode transformar o seu maior tropeço na sua base mais sólida?

Me conta aqui. Porque no final, somos todos feitos das histórias que decidimos abraçar.

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