O mundo não vê um teste de armas nucleares americano desde 1992.
Pensa nisso. Quase trinta e três anos de um consenso global frágil, mas mantido. Um silêncio que foi comprado a um custo altíssimo, nascido do terror paralisante da Guerra Fria, quando a humanidade se viu pela primeira vez capaz de se apagar.
Esse silêncio, o silêncio do solo do deserto não sendo vaporizado por uma nova bola de fogo, é uma das poucas heranças de sanidade que o século 20 nos deixou.
E agora, essa notícia.
Reportagens indicam que Donald Trump, em conversas privadas, considera seriamente retomar os testes de armas nucleares.
Não para gerar energia. Não para pesquisa científica que vá curar doenças.
Mas para ter um arsenal “incomparável”. Para “colocar medo em todo mundo”.
A pergunta imediata que surge é “por quê?”. Mas essa é a pergunta errada. A pergunta certa é: “o que acontece com todos nós quando o último tabu for quebrado?”
Para quem nasceu depois dos anos 90, a ideia de “teste nuclear” soa abstrata. Coisa de filme antigo, de documentário em preto e branco sobre a Guerra Fria.
Mas para quem viveu, para quem se lembra dos exercícios “duck and cover” (agache e se proteja) nas escolas, para quem se lembra da Crise dos Mísseis de Cuba, quando o mundo prendeu a respiração por treze dias… o som dessa proposta não é abstrato. É visceral.
É o retorno de um tipo de medo que achávamos ter superado. O medo existencial.
O mundo parou de testar massivamente por um motivo simples: nós vimos o abismo. Vimos o que acontece quando a ciência da destruição ultrapassa a nossa sabedoria em controlá-la.
O Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares, o CTBT, foi aberto para assinaturas em 1996. E aqui está o paradoxo… os Estados Unidos, que lideraram a moratória de testes… nunca o ratificaram. Nem a China, nem o Paquistão, Índia, Israel, Coreia do Norte.
Mas, com exceção da Coreia do Norte, todos os outros mantiveram o silêncio.
Por quê? Porque se entendeu que um teste não é apenas um teste. É uma mensagem.
Vamos ser claros sobre o que a proposta de Trump significa, com base no rigor jornalístico do que foi reportado.
A justificativa não é técnica.
O arsenal americano é, hoje, mantido pelo que eles chamam de ‘Stockpile Stewardship Program’. Um nome burocrático para algo impressionante: eles usam os supercomputadores mais potentes do mundo para rodar simulações. Eles testam o envelhecimento dos componentes, a física da detonação, a confiabilidade de cada ogiva… tudo isso sem explodir uma única bomba real.
Especialistas do Pentágono e cientistas de laboratórios como Los Alamos têm afirmado, por anos, que o arsenal é seguro, confiável e eficaz. Eles não precisam de testes físicos para saber que as armas funcionam.
Então… se não é uma necessidade técnica, o que é?
É uma performance.
É a “Doutrina do Louco” levada ao seu extremo. A ideia, popularizada por Nixon, de que para vencer uma negociação internacional, seus oponentes precisam acreditar que você é um pouco instável. Que você é capaz de apertar o botão vermelho.
Trump quer usar os testes como uma moeda de troca. Forçar a China e a Rússia a sentar numa nova mesa de negociação de armas.
Mas saca só a ironia trágica.
Para provar que você é forte… você precisa executar um ato que demonstra, na verdade, uma fraqueza estratégica. Uma incapacidade de usar a diplomacia, a economia ou a cultura… sobrando apenas o porrete.
E o que acontece no dia seguinte a um teste americano no deserto de Nevada?
O mundo não fica mais seguro. O mundo fica exponencialmente mais perigoso.
Primeiro, a resposta imediata. Você acha que a Rússia e a China vão dizer: “Oh, ok, estamos intimidados, vamos assinar o que você quiser”?
Não.
Putin, que já suspendeu a participação no tratado New START, teria a justificativa perfeita para retomar seus próprios testes no Ártico. A China, que está expandindo seu arsenal silenciosamente, teria a luz verde para acelerar e testar suas novas ogivas.
Isso se chama corrida armamentista. E nós sabemos exatamente como ela termina. Com dois lados apontando armas carregadas um para o outro, e o resto do mundo rezando para que ninguém tropece no gatilho.
Segundo, a proliferação.
Que autoridade moral os Estados Unidos teriam para dizer ao Irã que ele não pode enriquecer urânio? Que autoridade teriam para condenar a Coreia do Norte?
O argumento seria: “Ah, mas nós podemos, vocês não”.
Isso não funciona. Na geopolítica, a hipocrisia é o combustível da instabilidade. Um teste americano não seria visto como uma exceção. Seria visto como uma permissão. A Índia olharia para o Paquistão. O Japão e a Coreia do Sul, de repente, começariam a se perguntar se o “guarda-chuva nuclear” americano ainda é confiável, ou se não seria melhor… ter o seu próprio.
É a história dos dois homens numa sala cheia de gasolina.
Por trinta anos, eles concordaram em não brincar com fósforos. Eles ainda tinham os fósforos no bolso. Muitos deles. Mas havia um acordo.
Agora, um deles diz: “Eu vou acender um fósforo. Não para queimar a sala… só para mostrar como o meu fósforo queima mais forte. Só para te lembrar que eu posso queimar tudo isso aqui”.
O que o outro homem faz? Ele saca o seu próprio fósforo.
E nós… nós somos o carpete. Nós estamos na sala com eles. Nós, aqui no Brasil. O pessoal na Europa. Na África. Nós, que não temos nada a ver com essa disputa… mas que queimaremos juntos se eles decidirem que o ego deles é mais importante que o planeta.
Então, chegamos ao centro da questão.
Isso não é sobre segurança. É sobre o que a gente pode chamar de “branding do apocalipse”.
É a política externa reduzida a um exercício de marketing. Onde a “identidade da marca” da sua nação é o medo que ela inspira. Onde o “engajamento” é medido pela quantidade de pânico que você gera nos mercados globais. Onde o “storytelling” é uma história de terror.
Quando a maior potência do mundo abandona a linguagem da estabilidade, da previsibilidade, da cooperação… e adota a linguagem da imprevisibilidade e da intimidação… ela não está projetando força.
Ela está projetando desespero.
É a admissão tácita de que outras formas de poder – o poder econômico, o poder cultural, o poder moral – falharam.
Retomar testes nucleares não é uma jogada de xadrez 4D. É virar o tabuleiro. É dizer que o jogo da civilização, com suas regras e tratados… não importa mais.
O que importa é quem grita mais alto.
O barulho de uma explosão nuclear é, por definição, o fim de todas as conversas.
É a pontuação final.
E por três décadas, nós vivemos em um mundo que, pelo menos no papel, concordava que o silêncio era melhor. Que a conversa, por mais difícil que fosse, era preferível.
Agora… essa proposta está na mesa.
E ela nos força a confrontar o absurdo da nossa era. A fragilidade de tudo o que construímos.
Mas eu queria saber de você.
Quando você ouve uma notícia como essa… o que você sente, aí de onde você está?
É medo? É raiva? É uma sensação de cansaço, de que estamos condenados a repetir os piores erros dos nossos avós? Ou você acha que, no mundo brutal em que vivemos, esse é um jogo político necessário?
Me conta aqui nos comentários.
Vamos tentar entender isso juntos.