O FANTASMA DA CORTE: NÓS SOMOS O PROBLEMA?

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

Existe uma ideia… quase um consenso de sofá… de que o Brasil está “errado” no seu DNA.

De que a corrupção não é um acidente, mas um traço genético. Uma herança maldita que a corte portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro com suas bagagens e nunca mais foi embora.

O famoso “jeitinho”.

Aquela habilidade de encontrar a brecha, o atalho… a exceção. Aquele sorriso de canto de boca que sabe que a regra existe… mas que ela não se aplica exatamente assim, exatamente agora.

A gente olha pra Brasília… pros escândalos… pro drible na lei… e a gente balança a cabeça e pensa: “é… é cultural”.

Mas e se essa ideia… essa de que somos intrinsecamente falhos… for a maior e mais conveniente mentira que contamos a nós mesmos?

E se o “jeitinho” não for um problema de caráter… mas um sintoma? Um sintoma de um sistema que nasceu quebrado.

Eu sou professor de marketing digital. E aqui de Novo Progresso, no sul do Pará, a gente vive a realidade de um Brasil que precisa “acontecer” todos os dias… muitas vezes, apesar das regras.

No meu trabalho, a gente lida com a mudança constante. A plataforma muda o algoritmo da noite pro dia. O cliente quer o resultado pra ontem. O fornecedor na outra ponta do país atrasa.

E você… você tem que “dar um jeito”.

Isso é visto como uma virtude. É a criatividade. A adaptação. A resiliência. É o que faz o empreendedor brasileiro ser um dos mais… testados… do mundo.

Mas existe uma linha tênue. Uma sombra.

O “jeitinho” que resolve uma burocracia impossível… é o mesmo “jeitinho” que fura a fila do banco?

O “jeitinho” que descola um documento mais rápido pra conseguir abrir a empresa… é o mesmo que oferece o “cafézinho” pro guarda de trânsito?

A gente aplaude o primeiro e condena o segundo. Mas a raiz… a raiz é a mesma.

É a crença fundamental de que o sistema “oficial” não funciona. Ou, pior: a crença de que ele funciona… contra você.

E essa crença… ela não nasceu do nada.

Pensa comigo. Vamos voltar pra 1808.

A corte portuguesa não funda o Brasil. Ela se transfere pra cá.

E ela se transfere com medo. Fugindo de Napoleão. Ela não vem com um projeto de nação. Ela vem com um projeto de sobrevivência.

E ela traz consigo, na bagagem, um aparato estatal que não foi feito para servir a terra… mas para extrair da terra.

É o que os historiadores chamam de estado patrimonialista.

O que isso significa? Significa que o público e o privado não têm fronteira. O “rei”, o “governador”… ele não é um administrador do que é de todos. Ele é o dono.

Os cargos públicos não são dados por mérito… são dados por proximidade. Por lealdade. É o “compadrio”.

O Estado não existe para criar pontes, escolas ou hospitais para o povo. O Estado existe para cobrar impostos… para sustentar a si mesmo. Para sustentar a própria corte.

Agora, imagina o que acontece quando você impõe esse sistema de regras complexas, distantes, feitas em gabinetes empoeirados… sobre uma realidade tropical, selvagem, gigantesca e continental como a nossa.

Você cria um abismo.

Um abismo intransponível entre a “lei” e a “vida”.

E é nesse abismo… que nasce o “jeitinho”.

O “jeitinho”, na sua origem, não foi uma invenção de gente desonesta. Foi a ferramenta de sobrevivência do cidadão comum contra um estado que só pedia, mas não entregava.

Se pra você construir a sua casa, a lei exigia 14 selos diferentes, três assinaturas de pessoas que nem sequer existiam na sua cidade, e uma espera de dois anos… você ia esperar?

Ou você ia “dar um jeito”?

Você ia encontrar o “compadre” que conhecia o “sujeito” que carimbava o papel.

Não era sobre corromper o sistema. Era sobre contornar um sistema que era, em si, irracional. Era sobre viver.

A burocracia era tão asfixiante… que o atalho virou a regra.

O “jeitinho” foi a lógica que o brasileiro encontrou para fazer o país funcionar… apesar do Estado.

O problema… é que a corte foi embora. O império caiu. A república veio. Mais de duzentos anos se passaram.

E o sistema… o sistema ficou.

O fantasma da corte permaneceu.

A burocracia. A lentidão. A distância. A sensação de que o ‘Estado’, lá em Brasília… ou mesmo na capital… é uma entidade alheia, que não joga no seu time.

E nós… nós continuamos usando a mesma ferramenta de sobrevivência… mesmo quando o cenário, teoricamente, mudou.

No marketing, a gente estuda um conceito chamado “custo de transação”. É o esforço… o tempo, o dinheiro, a energia… que o cliente precisa fazer para conseguir algo.

Quando o custo de comprar o produto “oficial” é muito alto… o cliente busca o “atalho”. Ele busca a pirataria. Ele busca o mercado informal.

No Brasil, o custo de ser “correto”… o custo de ser 100% formal… o custo da burocracia… é astronomicamente alto.

O sistema incentiva o atalho. Ele premia o “jeitinho”.

E depois, hipocritamente, esse mesmo sistema aponta o dedo e chama o povo de corrupto por usar a única ferramenta que ele mesmo deixou disponível.

Nós nos acostumamos a viver no abismo.

A gente se acostumou com a ideia de que existem dois Brasis: o Brasil “real”… e o Brasil “oficial”, o do papel. E que a nossa inteligência está em saber navegar entre os dois.

Então, voltamos à pergunta inicial.

O problema é o nosso “DNA”?

Não. Mil vezes não.

O “DNA brasileiro” não é corrupto. O “DNA brasileiro” é criativo. É resiliente. É sociável. É sobrevivente.

O que nós temos é um software cultural. Um sistema operacional… que rodou por séculos sem ser atualizado.

Um software que nos ensinou que as regras são, na melhor das hipóteses, sugestões… porque elas nunca foram feitas pra nós. Elas foram feitas para a “corte”.

O “jeitinho” é o sintoma.

A doença é a desconfiança.

A desconfiança mútua entre o cidadão e o estado. Entre o cidadão e o próprio cidadão. A sensação de que, se você seguir a regra, você é o “otário”. Você é o que fica pra trás.

Essa… essa é a verdadeira herança da corte. Não o dinheiro que levaram, mas a confiança que impediram de nascer.

Mudar isso não é simples. Não se muda um software cultural com um decreto.

É uma mudança lenta. É construir instituições que sejam… confiáveis.

É baixar o “custo de transação” de ser honesto. É fazer com que seguir a regra seja, de fato, o caminho mais lógico, mais fácil e mais vantajoso.

É um trabalho de formiga, que começa aqui, na nossa rua. Na nossa cidade. Aqui em Novo Progresso. Na forma como a gente faz negócio. Na forma como a gente educa nossos filhos.

É parar de aplaudir o atalho.

Mas eu quero saber de você.

Você já se viu preso nesse abismo? Entre o que é “certo” pela lei… e o que é “necessário” pra fazer a vida acontecer?

Você acha que o “jeitinho” é mais uma virtude de adaptação… ou é, hoje, o primeiro passo para o problema maior?

Me conta aqui nos comentários… qual é a sua história com ele?

Facebook
WhatsApp
Threads
Telegram
Reddit
LinkedIn
X

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *