Existe uma regra não escrita na política brasileira.
Você pode mexer com a economia. Você pode, até certo ponto, flertar com escândalos. O eleitorado, historicamente, demonstra uma elasticidade moral surpreendente… uma capacidade de perdoar o que parecia imperdoável.
Mas há uma fronteira que você não cruza.
A fronteira da segurança. A fronteira da percepção visceral de quem é a vítima… e quem é o agressor.
Essa semana, o Presidente Lula não apenas tocou nessa fronteira. Ele tentou redesenhá-la em tempo real, diante das câmeras.
E ao fazê-lo, ele não iniciou um debate. Ele iniciou uma crise.
A questão, para mim, não é se o que ele disse está sociologicamente certo ou errado. A questão é muito mais profunda: por que, taticamente, um governo decide travar uma guerra de narrativa que ele sabe… que ele deveria saber… que não pode vencer?
A fala, no seu cerne, foi uma tentativa de aplicar uma lente de causalidade. A declaração de que o traficante, de alguma forma, é também uma vítima. Uma vítima da demanda do usuário, uma vítima do sistema que o empurrou para aquela vida.
Na academia, nos livros de sociologia, essa é uma discussão longa. Válida, talvez.
Mas no palanque… no palanque, ela é dinamite.
A reação não foi um debate. Foi uma explosão. De editoriais da grande imprensa a grupos de mensagem aqui no Pará, em Novo Progresso, a leitura foi uma só: a inversão completa da lógica.
O Estado, na figura do seu líder máximo, estava relativizando o agressor.
Pensa comigo. Como professor de marketing, eu passo meus dias analisando narrativas. Toda marca, todo produto, toda ideia… vende uma história. E a história que o brasileiro médio consome, e na qual ele acredita piamente, sobre segurança pública é simples.
Quase bíblica.
Existe o bem, e existe o mal. Existe o trabalhador… e existe quem o ameaça.
Quando o governo tenta aplicar essa lente sociológica complexa, ele comete o que no marketing nós chamamos de “falha de persona”. Ele erra o público.
Ele não está falando com o brasileiro que acorda às cinco da manhã e teme ter o celular levado no ponto de ônibus. Ele não está falando com o pequeno comerciante que paga “taxa de segurança” para a milícia ou para o tráfico.
Ele está falando para uma bolha. Uma bolha que ama discutir as “estruturas”, mas que raramente sente o impacto direto delas.
E aqui na nossa região, aqui no sul do Pará, a realidade não é uma estatística do IBGE. A violência, a briga por terra, a rota do tráfico… isso não é um conceito abstrato. É o motivo pelo qual você coloca um cadeado a mais no portão. É a conversa no café.
Quando a autoridade máxima do país parece desfocar a linha entre o criminoso e a vítima… o que você acha que o cidadão aqui na ponta da linha sente?
Ele não sente empatia pela “causa”.
Ele sente abandono.
Ele sente que as prioridades do poder estão fundamentalmente desalinhadas das suas.
O governo tentou vender complexidade para um público que clama por simplicidade. Não a simplicidade da ignorância, mas a simplicidade da necessidade. A necessidade de saber quem protege e quem ataca.
E esse vácuo… esse vácuo de narrativa é perigoso.
Porque no marketing, assim como na política, um vácuo nunca fica vazio por muito tempo.
A oposição não precisa fazer absolutamente nada. Ela não precisa ter um plano de segurança melhor. Ela não precisa propor uma solução estrutural.
Ela só precisa pegar o microfone e dizer: “Viram? Nós avisamos. Eles estão do lado de lá.”
É o gol de placa da retórica conservadora, entregue de bandeja pelo próprio governo. É a confirmação de uma suspeita que a oposição martela há anos: a de que a esquerda, em sua busca por justiça social, perdeu o contato com a justiça comum.
A tentativa de humanizar o problema acabou desumanizando a vítima real. A vítima que não está no discurso, mas que está no IML.
E essa desconexão… essa desconexão é fatal.
Porque você pode consertar a economia. Você pode aprovar reformas. Mas quando você perde a autoridade moral sobre quem define o certo e o errado no imaginário popular… você perde o direito de liderar.
O que nós estamos assistindo, portanto, não é apenas um debate sobre segurança pública.
É uma lição brutal sobre comunicação.
O governo tentou ganhar uma discussão filosófica e, no processo, perdeu a confiança emocional do seu público.
A fronteira que Lula cruzou não foi a da sociologia; foi a da empatia. Ele mirou a empatia na “causa”… e o público entendeu como uma traição à “vítima”.
E na política, meus amigos, assim como no marketing digital que eu tanto estudo e ensino… a percepção não é parte do jogo.
Ela é o jogo inteiro.
O governo quis reescrever a história. Mas ele esqueceu de perguntar ao leitor se ele concordava com o novo enredo.
Esse episódio todo me fez pensar muito sobre as narrativas que contamos. Seja no marketing, seja na vida.
A gente se esforça tanto para explicar o “porquê” das coisas… que, às vezes, a gente esquece de validar o “como” as pessoas se sentem sobre elas.
Nós, que gostamos de pensar o mundo, adoramos a complexidade. Mas a vida, para quem a sente na pele, muitas vezes exige clareza.
E agora, eu quero saber de você.
Quando você ouviu essa declaração, qual foi a sua reação imediata? Foi de compreensão da complexidade… ou foi de indignação?
E, mais importante: você acha que o papel do líder é falar o que é sociologicamente complexo, correndo o risco de ser mal interpretado… ou ele deve falar o que o povo, em sua maioria, sente como verdade imediata?
Onde fica o equilíbrio entre ser um educador… e ser um representante?
Deixa sua reflexão aqui embaixo. Vamos conversar.