O CÁLCULO DO SILÊNCIO: O QUE LULA NÃO DISSE SOBRE A GUERRA NO RIO

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

Mais de cento e vinte mortos. Quatro deles, policiais.

A ‘Operação Contenção’, deflagrada na terça-feira no Complexo do Alemão e na Penha, já nasce com o título trágico de ser a ação policial mais letal da história do Rio de Janeiro.

Enquanto as agências de notícias atualizavam o número de corpos… o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, foi a público. E, diante das câmeras, classificou a operação como um “sucesso”.

Mais do que isso. Ele afirmou que as “únicas vítimas” daquele dia… foram os policiais. Sugerindo que todos os outros mortos, dezenas deles, eram criminosos.

Uma declaração que ecoa num país fraturado.

E em Brasília… silêncio.

Nas primeiras 24 horas críticas, enquanto organizações de direitos humanos falavam em “massacre” e o STF era acionado… o Palácio do Planalto não disse nada.

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, estava… ausente.

A pergunta que ecoou na imprensa, nas redes, e que motiva essa nossa conversa de hoje é: o que significa essa demora?

Esse atraso em se manifestar sobre a maior chacina da história do estado… não é um lapso. Não é um esquecimento.

Em política… o silêncio nunca é vazio.

Ele é uma ferramenta. Uma escolha tática.

E, nesse caso, o silêncio de Lula foi um cálculo político complexo, feito em cima de uma ‘sinuca de bico’ que define a segurança pública no Brasil.

Para entender a demora do presidente, primeiro a gente precisa entender a armadilha que foi montada para ele.

O governador Cláudio Castro, um adversário político de Lula, não agiu de forma ingênua. Quando ele declara que o Rio de Janeiro está “sozinho nesta guerra”… ele não está apenas descrevendo um fato. Ele está construindo uma narrativa.

Uma narrativa onde ele é o xerife que tem a coragem de agir… e o governo federal é o burocrata omisso que assiste de longe.

O Ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, veio a público rapidamente para rebater. Disse que o governo do Rio não solicitou apoio federal para esta operação.

Castro, por sua vez, diz que não pediu desta vez… porque já teve três pedidos anteriores de ajuda, como o de cessão de blindados das Forças Armadas, negados.

Saca só a complexidade disso?

Não é uma falha de comunicação. É uma guerra de versões.

Aqui de Novo Progresso, no Pará, olhando para o mapa do Brasil, a gente às vezes percebe a dinâmica do sudeste como algo distante. Mas a lógica do poder é a mesma em qualquer lugar.

Quando um problema é grande demais, como a segurança… a primeira estratégia política não é resolvê-lo. É encontrar um dono para ele.

Cláudio Castro está, ativamente, tentando entregar a escritura dessa crise… no colo de Lula.

E é aí que entra a ‘sinuca de bico’ do presidente.

Lula tinha, essencialmente, dois caminhos ruins.

O primeiro caminho: Se manifestar imediatamente, condenando a operação. O que aconteceria? Ele seria acusado de “passar a mão na cabeça de bandido”. Ele daria munição para a narrativa de que o governo federal “não deixa a polícia trabalhar”. E ele perderia apoio daquela fatia da população que, assustada com a violência diária, aplaude a ação… mesmo sem resultado. Pesquisas de ontem mostram que 67% dos cariocas apoiaram a operação.

Condenar a ação seria um suicídio político com o eleitorado do centro.

O segundo caminho: Se manifestar imediatamente, apoiando a operação.

Isso seria ainda pior.

Primeiro, porque dinamitaria a sua própria base de apoio. Seria uma traição aos movimentos de direitos humanos, aos parlamentares da esquerda, como Talíria Petrone ou Benedita da Silva, e até mesmo a ministros do seu próprio governo, como Anielle Franco.

Segundo, porque ao apoiar, ele estaria assinando embaixo da estratégia de Cláudio Castro. Ele se tornaria sócio da letalidade. Se algo desse errado… a culpa seria de Brasília.

E, pior: ele legitimaria o pedido de Castro por uma GLO. Uma Garantia da Lei e da Ordem.

A GLO é o sonho de consumo de Castro. Porque ela tira o poder do governador e joga todo o passivo, militar e político, nas mãos do Presidente da República.

Lula se tornaria o fiador de uma política de segurança que ele, historicamente, sempre criticou. A política do confronto. Do “enxugar gelo com sangue”.

Então… o que fazer?

Se ele fala… ele perde. Se ele apoia… ele perde.

A resposta foi: não jogar.

O silêncio inicial de Lula não foi paralisia. Foi uma deliberação estratégica para escapar dessa armadilha.

Ele precisou de tempo para construir uma terceira via.

E qual foi a resposta, quando ela finalmente veio?

Ela não veio como uma nota de repúdio. E nem como uma nota de aplauso.

Ela veio em forma de ação calculada.

Primeiro, Lula convocou uma reunião de emergência no Alvorada. Chamou Lewandowski, da Justiça. Múcio, da Defesa. Rui Costa, da Casa Civil. O diretor-geral da Polícia Federal.

Ele não discutiu a operação de Castro. Ele discutiu o problema do crime organizado.

A resposta de Lula, que começou a ser desenhada ali, é sobre mandar mais fuzis para o morro.

É sobre mudar o foco da guerra.

O governo federal sabe que a segurança do Rio não se resolve dentro do Rio. Ela se resolve nas fronteiras, por onde entram as armas. Nos portos, por onde a droga é escoada. E nos bancos, por onde o dinheiro é lavado.

A estratégia de Castro é o espetáculo. É a pirotecnia da guerra, que gera manchetes e uma sensação imediata de justiça… mas que não muda a estrutura.

A estratégia que Lula tenta construir é a do antibiótico. É a da inteligência. Longa, cara, invisível e que não gera aplauso imediato.

Por isso, a resposta de Lula veio em duas frentes:

  1. Uma postagem em rede social falando em “trabalho coordenado”.
  2. E a aceleração, no Congresso, da chamada “PEC da Segurança Pública”, que dá mais poder à Polícia Federal para investigar o crime interestadual.

O silêncio, portanto, significou uma recusa.

Foi a recusa de Lula em participar da campanha de marketing de Cláudio Castro.

O governador do Rio oferece ao público uma solução que se parece muito com marketing de resposta direta… brutal, imediata, focada na conversão do medo em voto.

Lula, vindo do marketing político, sabe que essa não é a única forma. Ele tenta vender o branding da integração. A soberania. O trabalho de longo prazo.

Enquanto os estrategistas calculam em Brasília e no Palácio Guanabara… a realidade no Rio é que a política de segurança pública virou refém da política eleitoral.

E no meio disso… o STF, através do ministro Alexandre de Moraes, manda o governador Castro explicar, em 18 pontos, o que exatamente aconteceu.

E ONGs como a Redes da Maré precisam lembrar o óbvio: “segurança pública não se faz com sangue”.

A pergunta que fica, e eu deixo essa reflexão para você…

Nós, como sociedade, estamos tão viciados nas soluções espetaculares… que desaprendemos a ter paciência para as soluções reais?

A gente se acostumou a aplaudir a guerra… porque desaprendemos a construir a paz?

Me diz o que você pensa sobre isso.

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