Existe uma foto… uma imagem que, para mim, define a ordem mundial nos últimos 50 anos.
É a foto do G7.
Os líderes das nações mais ricas. O Japão, a Alemanha, o Reino Unido, os Estados Unidos, França, Itália, Canadá. Os “adultos na sala”. Ali, eles decidem os rumos da economia global, da guerra, da paz, das regras do jogo.
E o Brasil…
Bem, o Brasil nunca tá nessa foto.
No máximo, o Brasil é convidado pra tomar um café na sala ao lado. É o “parceiro estratégico”. É o país do futuro. É o convidado de honra na festa… que não pode sentar na mesa principal.
A recente e barulhenta expansão do BRICS… com a entrada de Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia… não é, fundamentalmente, sobre economia. Não é sobre um novo banco.
É sobre o Brasil. E a Índia. E a África do Sul.
É sobre um grupo de países tentando, de forma um tanto desajeitada, chutar a porta dessa sala… e botar a própria cadeira na mesa.
A pergunta que fica… a pergunta que realmente importa é: essa cadeira que o Brasil tá tentando forçar pra dentro da sala… ela é real?
Ou é só um banquinho dobrável que os adultos vão deixar a gente usar por um tempo?
Pensa comigo.
O BRICS começou de um jeito quase cômico. Foi um acrônimo, uma sigla de mercado financeiro, inventada em 2001 por um economista do Goldman Sachs, Jim O’Neill.
Era só uma tese de investimento. Um jeito fácil de dizer para os bilionários onde eles deveriam colocar o dinheiro deles na próxima década. “Olhem para o Brasil, Rússia, Índia e China”.
Mas a política… ah, a política tem um jeito muito particular de sequestrar ideias do mercado financeiro.
O que era uma sigla de Powerpoint virou um bloco político. Um clube.
E que clube é esse?
Se você olhar os novos membros… Arábia Saudita, Irã, Egito, Etiópia, Argentina, Emirados Árabes… e tentar achar uma coerência ideológica… você vai falhar miseravelmente.
É o caos.
Você tem uma teocracia islâmica xiita, o Irã, sentando na mesma mesa que uma monarquia absolutista sunita, a Arábia Saudita… que é, historicamente, a maior aliada dos Estados Unidos no Oriente Médio. Você tem a Etiópia, um dos países mais pobres do mundo, e os Emirados Árabes, um dos mais ricos.
O que… o que exatamente une essa gente?
A resposta é uma palavra só: frustração.
O cimento que liga esse bloco disforme não é uma ideologia. É o ressentimento.
É a frustração coletiva com o sistema criado no pós-Guerra… e solidificado nos anos 90, depois da queda da União Soviética. Um sistema onde os Estados Unidos e a Europa escrevem as regras do jogo.
Um sistema que diz: “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.
Um sistema que fala em livre mercado… mas subsidia os próprios agricultores. Que fala em democracia… mas se alia com ditaduras convenientes. Que fala em regras internacionais… mas invade o Iraque sem a sanção da ONU.
O BRICS é o clube dos países que são grandes demais para serem ignorados, mas que nunca foram convidados para o clube principal.
Eu moro em Novo Progresso. Sul do Pará.
Aqui, a gente vive essa dualidade todo santo dia. Nós estamos no coração de uma das regiões que mais produz riqueza no mundo.
Eu vejo a riqueza do Brasil saindo em carretas intermináveis pela BR-163. Soja. Milho. Gado. O Brasil… o Pará… alimenta o mundo.
Mas na hora de definir o preço dessa soja… esse preço não é definido aqui. É definido na Bolsa de Chicago.
Na hora de decidir as regras do comércio internacional, as sanções que dizem pra quem o Brasil pode ou não vender essa carne… essa decisão não é nossa. Ela é tomada em Bruxelas. Em Washington.
O produtor rural aqui… ele é um gigante dentro da porteira da fazenda dele.
Mas ele é um anão na mesa de negociação global.
O Brasil, como país, sente exatamente a mesma coisa. O Itamaraty, com toda a sua pompa, sente a mesma coisa. O Brasil é um gigante produtivo… e um anão geopolítico.
O BRICS é a tentativa de mudar essa dinâmica. É o Brasil dizendo: “Eu cansei de ser o ‘país do futuro’. Eu quero ser o país do presente”.
E, como era de se esperar, os “adultos” na sala principal não gostaram nem um pouco da ideia.
A reação da imprensa ocidental à expansão do BRICS foi um misto de escárnio e desprezo.
A revista The Economist… o porta-voz do establishment liberal… publicou artigos dizendo que o bloco era “incoerente”, “disfuncional”. A Bloomberg questionou se o bloco conseguiria sequer concordar sobre o cardápio do almoço, quem dirá sobre uma nova ordem mundial.
Eles tratam o BRICS como uma birra de adolescente. Uma rebeldia sem causa.
Mas saca só a ironia…
O Ocidente passou as últimas três décadas dizendo para países como o Brasil e a Índia: “assumam suas responsabilidades”, “sejam mais assertivos”, “ocupem seu espaço no cenário global”.
E no exato momento em que o Brasil tenta fazer isso… mas tenta fazer isso fora do roteiro escrito por eles… a reação é de raiva. De desprezo.
É como aquele pai que incentiva o filho a ter opinião própria…
…até o dia em que o filho discorda dele na frente das visitas.
A verdade é que o sistema atual gosta do Brasil… desde que o Brasil continue sendo o Brasil: o bom moço, o país cordial, o gigante gentil que nunca usa a própria força.
E aqui, a gente chega no drama brasileiro. No nosso dilema.
O Brasil não quer um mundo anti-americano. O Brasil quer um mundo pós-americano.
O Itamaraty adora uma palavra: “multipolaridade”. Um mundo com vários centros de poder. O Brasil não quer derrubar a mesa do G7. Ele quer ser convidado para sentar nela.
O problema… o elefante no meio do BRICS… é a China.
Ao tentar usar o BRICS para fugir da esfera de influência americana… o Brasil não corre o risco de acabar indo parar, de mala e cuia, na sala de jantar chinesa?
Afinal, o PIB da China é maior do que o de todos os outros membros do BRICS… somados. Duas vezes.
A China tem um projeto de poder claro. O Irã tem um projeto de poder claro. A Rússia tem um projeto.
E o Brasil?
O Brasil… tem uma esperança.
A esperança de que, nesse novo arranjo caótico, sua voz finalmente será ouvida. A esperança de que poderá, enfim, ser um player… e não apenas o tabuleiro onde as grandes potências jogam.
Então… o Brasil vai finalmente sentar na mesa dos adultos?
A resposta, por enquanto, é não.
O BRICS, hoje, não é a mesa principal.
O BRICS é a construção de uma outra mesa.
Uma mesa barulhenta. Uma mesa caótica, cheia de gente que não concorda em quase nada… exceto no fato de que eles não aguentam mais esperar pelo convite da mesa principal.
O valor do BRICS não é o que ele é hoje. É o que ele representa.
Ele representa a primeira fissura real, organizada, na arquitetura unipolar que dominou as nossas vidas desde 1991. Ele é a prova de que a história não acabou.
Para o Brasil, é uma aposta arriscada. Muito arriscada.
É a tentativa de usar o peso da China para se levantar… sem ser esmagado por ele no processo.
É trocar a certeza confortável de ser um eterno coadjuvante de luxo… pela incerteza vertiginosa de tentar ser, pela primeira vez, um protagonista.
Aqui de Novo Progresso, eu olho para esse movimento de Brasília e vejo com uma esperança muito cautelosa.
A gente, aqui no Pará, sabe muito bem o que é ser “emergente” a vida inteira. A gente sabe o que é ter um potencial infinito… e viver com a sensação de que ele nunca se realiza de fato.
Mas eu queria muito saber de você.
Você acha que o Brasil tá certo em apostar no BRICS? Ou você acha que isso é só uma ilusão, uma troca de um mestre por outro, de Washington por Pequim?
Você se sente representado por essa busca por um “lugar ao sol” geopolítico?
Ou você acha que o Brasil deveria parar de se preocupar com a foto do G7… e focar nos problemas gigantescos que a gente tem aqui dentro de casa?
Me conta o que você pensa.
Me conta aqui… nos comentários.