A rotina é uma coisa curiosa. A gente acorda, toma café, vai para o trabalho, acreditando numa espécie de contrato invisível de segurança. Acreditamos que a segunda-feira é apenas mais um dia para vender, para produzir, para viver.
Mas na manhã desta última segunda-feira, numa pastelaria na Zona Norte de São Paulo, esse contrato foi rasgado. Não por um acidente. Não pelo acaso. Mas por uma pergunta.
“Você não vai sair?”
Essa foi a última coisa que Evelin ouviu antes do barulho ensurdecedor. Não de um, mas de dois revólveres. O que acontece na cabeça de um homem que precisa de duas armas para lidar com a rejeição de uma única mulher? Pensa comigo: isso não é só uma notícia de jornal. Isso é um diagnóstico de como a gente adoeceu.
O cenário era o bairro Jardim Fontalis. Evelin de Souza Saraiva, de 38 anos, estava trabalhando. Ela estava há cinco meses nessa pastelaria, reconstruindo a vida. O homem que entra em cena é Bruno Lopes Barreto. Ex-companheiro.
As câmeras de segurança — essas testemunhas silenciosas do nosso tempo — capturaram o momento exato. E aqui, é preciso prestar atenção na coreografia do horror. Ele não chega atirando. Ele chega cobrando. Ele se aproxima e repete a pergunta, como se a vontade dele fosse uma ordem natural do universo: “Você não vai sair?”.
Diante da negativa dela, diante da autonomia dela de dizer “não”, ele saca duas armas. Simultaneamente. E dispara pelo menos seis vezes.
Aqui do Pará, a gente vê as notícias do “sul maravilha” e, muitas vezes, a violência parece distante, urbana demais. Mas o que o Bruno fez não tem CEP. O que ele fez transcende a geografia. Ele fugiu de moto. Evelin foi socorrida pelo helicóptero Águia, passou por cirurgia no Hospital das Clínicas e luta pela vida na UTI.
Mas vamos olhar além do boletim de ocorrência. O que a Secretaria de Segurança Pública registrou como “tentativa de feminicídio” é, na verdade, a ponta de um iceberg muito mais profundo. Apenas dois dias antes, na mesma região, outra mulher foi arrastada por um quilômetro por um ex-ficante. O que está acontecendo? Por que a resposta masculina para o “fim” é, tão frequentemente, a aniquilação do outro?
Eu passo parte dos meus dias ensinando marketing. E no marketing, existe um conceito chamado Churn Rate. É a taxa de cancelamento. É quando um cliente decide que não quer mais o seu serviço e vai embora. Para uma empresa, o Churn é um problema financeiro. Mas, para a psique fragilizada de homens como o Bruno, o “cancelamento” do relacionamento não é um problema logístico. É uma ofensa mortal à própria existência.
Zygmunt Bauman, em “Amor Líquido”, falava sobre a fragilidade dos laços humanos. Mas aqui, a gente vê o oposto da liquidez. A gente vê uma solidificação doentia. A ideia de que o outro é uma propriedade.
Quando Bruno saca duas armas, ele não está apenas tentando matar a Evelin. Ele está tentando matar a liberdade dela. O uso de duas armas é simbólico. É o excesso. É a performance. É como se uma arma não bastasse para calar a audácia de uma mulher que decidiu seguir em frente. Ele precisava de duas para tentar preencher o vazio gigantesco da própria insegurança.
Pensa na frase: “Você não vai sair?”. Não é um convite. É uma intimação. No momento em que ela diz não, ela deixa de ser a “mulher amada” e passa a ser o objeto quebrado que precisa ser descartado.
Isso revela uma crise profunda na masculinidade contemporânea. Nós criamos gerações de homens que não têm ferramentas emocionais para lidar com a perda. Homens que, quando perdem o controle sobre o outro, perdem o controle sobre si mesmos. O ciúme não é amor. Nunca foi. O ciúme, nesse nível, é o medo de que o “brinquedo” pertença a outra pessoa.
Evelin está numa UTI agora. Lutando para respirar, lutando para que o corpo dela sobreviva à decisão de um homem que achava que era dono desse corpo. Enquanto isso, Bruno está foragido.
A questão que fica martelando na minha cabeça, enquanto escrevo isso aqui, é a seguinte: Quantos Brunos cruzaram o seu caminho hoje?
Quantas vezes, no seu círculo de amigos, no seu trabalho, ou até no espelho, você viu esse traço de possessividade ser disfarçado de “cuidado”? A violência física, os seis tiros, as duas armas… isso é o ato final. Mas o espetáculo começa muito antes. Começa no controle da roupa, na senha do celular exigida, no isolamento da família. Começa quando a gente ensina que amar é possuir.
A gente fala muito sobre “retenção” no mundo dos negócios. Sobre segurar o cliente a qualquer custo. Mas a vida não é um negócio. As pessoas não são leads que a gente captura e converte. A maior prova de amor — ou, no mínimo, de humanidade — que alguém pode dar, é deixar o outro ir. É respeitar o “não”.
Mas me diz você… quando você ouve uma história dessas, o que te assusta mais: a brutalidade dos seis tiros, ou a familiaridade daquele ciúme que a gente vê todo dia, normalizado, nas nossas relações?
Referências Bibliográficas e Fontes:
- Reportagem Base: G1 São Paulo e Secretaria de Segurança Pública de SP (SSP). “Homem atira contra ex-companheira em pastelaria na Zona Norte de SP”. Acesso em 02/12/2025.
- Referência Conceitual: BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
- Conceito de Marketing: “Churn Rate” e “Retenção de Clientes” (Kotler, P., & Keller, K. L. Administração de Marketing).