E SE DEUS FOSSE APENAS UM DE NÓS?

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

“E se Deus tivesse um nome? E se Ele tivesse um rosto? E se, de repente, você desse de cara com Ele na janela do ônibus, voltando cansado do trabalho?”

Essa pergunta não é minha. Ela ecoou nos rádios do mundo todo nos anos 90, na voz da Joan Osborne. Mas, hoje, rolando o feed e vendo essa música tocar de novo, uma coisa me atingiu com a força de um soco no estômago.

A gente construiu templos gigantescos, criamos dogmas complexos e rituais exaustivos. Mas a verdade… a verdade desconfortável é que a maioria de nós, que diz buscar o sagrado, talvez atravessasse a rua para não ter que cumprimentar o próprio Deus se Ele aparecesse hoje.

Pensa comigo: será que o Cristianismo moderno se esqueceu quem foi seu Cristo?

A música One of Us toca numa ferida aberta. Ela sugere um Deus que não está sentado num trono de ouro, inalcançável, gerenciando o universo como um CEO distante. Ela sugere um Deus que é “um de nós”. Um estranho no ônibus tentando achar o caminho de casa.

E isso me fez pensar sobre como nós “embalamos” a divindade. Eu, como professor de marketing aqui no Pará, vejo muito isso: a “gourmetização” da fé. Nós pegamos a figura histórica de Jesus — um homem que, segundo os relatos, não tinha onde reclinar a cabeça — e o transformamos no garoto-propaganda de clubes exclusivos.

Hoje, parece que Deus foi privatizado. Ele ficou fechado em pequenos grupos que acreditam ter o copyright, os direitos autorais da vontade divina. Grupos que vociferam regras, que apontam o dedo, que decidem quem entra e quem fica de fora.

Mas vamos voltar ao texto original. Vamos olhar para o personagem que rege toda essa crença.

Eu não sou teólogo, nem cristão. Eu olho para a biografia de Jesus com a curiosidade de quem analisa uma narrativa qualquer. E o que a gente vê lá não bate com o que a gente vê hoje nas manchetes ou nos púlpitos lotados de “santos”.

Se esse carpinteiro da Galileia vivesse hoje… se ele caminhasse pelas ruas de terra da sua cidade ou pelas avenidas das capitais… onde ele estaria?

A probabilidade estatística e histórica nos diz que ele não estaria dentro de uma igreja, ouvindo sermões sobre prosperidade, muito menos discutindo temas do tipo “isso pode; isso não pode”.

Não. A narrativa dele sempre foi sobre a margem. Sobre a periferia.

É muito provável que Jesus estivesse muito mais próximo da travesti, parada na esquina, invisibilizada pela sociedade, do que do líder religioso que clama por moralidade enquanto ignora a humanidade. Ele estaria nos guetos. Ele estaria acalentando quem a estrutura social — e religiosa — decidiu descartar.

Existe uma passagem antiga, onde o próprio Cristo diz que, no final das contas, muitos diriam: “Senhor, nós pregamos em teu nome”. E a resposta dele seria dura: “Eu não conheço vocês”.

Por quê? Porque quando ele teve fome, quando ele foi estrangeiro, quando ele foi marginalizado, essas pessoas estavam ocupadas demais cuidando da própria “santidade” para notar a divindade no rosto do outro.

O livro sagrado dos cristãos diz que Deus criou o homem à sua imagem. Mas uma simples observação mostra que os cristãos criaram um Deus à sua imagem e semelhança: um Deus que gosta de quem a gente gosta e odeia quem a gente odeia. Mas a mensagem original, a mensagem “escandalosa” da cruz, era justamente o oposto. Era a ruptura. Era sentar para comer com quem ninguém queria sentar.

A música pergunta: “Você ajudaria se Ele pedisse ajuda?”.

A tragédia é que a gente provavelmente chamaria a polícia. Porque o Deus que “é um de nós” não se veste como rei. Ele se veste como quem precisa de ajuda.

A gente precisa parar de procurar Deus apenas nas igrejas e começar a procurá-lo no olhar cansado do trabalhador, na angústia do LGBT foi rejeitado pela família, na dignidade de quem luta para ser quem é num mundo que exige conformidade.

O Cristianismo, em sua essência, não deveria ser sobre construir muros para proteger um Deus frágil. Deveria ser sobre derrubar muros para encontrar um Deus que está, invariavelmente, do lado de fora.

Talvez o maior ato de fé hoje não seja ir a um culto no domingo. Talvez seja ter a coragem de olhar para a pessoa que a sociedade diz que “não vale nada” e conseguir enxergar ali, naquele exato lugar, o sagrado.

E é por isso que aquela música continua tão atual. Ela tira Deus do céu e o coloca no banco do passageiro. Ela nos força a lidar com a humanidade dEle e, consequentemente, com a nossa falta de humanidade.

Recuperar essa visão não é sobre religião. É sobre empatia. É sobre entender que, se o divino existe, ele pulsa em cada vida, sem exceção.

Mas me diz você, e eu quero muito ler a tua opinião aqui embaixo: se a figura central da tua crença — seja ela qual for — batesse na tua porta hoje, sem aviso, sem glória, apenas como um ser humano comum… você a reconheceria? Ou você a deixaria do lado de fora?


Referências:

  • Bazilian, E. (Compositor). (1995). One of Us [Canção gravada por Joan Osborne]. In Relish [Álbum]. Blue Gorilla; Mercury.
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