Uma nova CPI foi instaurada.
O nome é forte. “CPI do Crime Organizado”. Soa como um roteiro de filme de ação, uma promessa de que, finalmente, a luz do sol vai bater nos porões do poder.
Mas no teatro político brasileiro, a distância entre a promessa e a realidade é, muitas vezes, um abismo.
A pergunta que fica não é o que essa CPI vai investigar. A pergunta é: ela foi criada para investigar… ou para esconder?
Pensa comigo.
No papel, o objetivo é nobre. O requerimento de instalação, que circulou em Brasília e recolheu as assinaturas necessárias, fala em “mapear a infiltração” de facções criminosas nas instituições. No poder público. No sistema financeiro.
O discurso oficial, aquele que é feito na frente das câmeras, é impecável. É o discurso da ordem, da lei, da proteção ao cidadão de bem que não aguenta mais a sensação de insegurança.
E a verdade é que o problema é real. Dolorosamente real.
O crime organizado deixou de ser uma questão de polícia e se tornou um poder paralelo. Ele não está mais contra o Estado. Em muitos lugares, ele é o Estado. Ele financia campanhas, elege seus representantes, dita as regras do jogo e, principalmente, lava o seu dinheiro.
O dinheiro que financia a violência… é o mesmo dinheiro que, depois de “limpo”, vira investimento imobiliário, vira grande negócio, vira doação de campanha.
Tudo isso, nós já sabemos.
Mas… e sempre existe um “mas” quando o assunto é o poder em Brasília… a gente precisa aprender a ler as entrelinhas.
Por que agora?
Uma CPI consome um poder político e um capital midiático imensos. Ela é um holofote. E a regra número um da política é: você só gasta energia e holofotes naquilo que te traz algum tipo de retorno. O que, exatamente, se ganha com essa CPI?
É aqui que o jogo começa a ficar interessante.
De um lado, você tem o bloco da oposição. Para eles, a CPI é uma vitrine. É a chance de ouro de associar o governo atual (qualquer que seja ele, isso é atemporal) à incompetência no combate ao crime ou, pior, à conivência.
Cada depoimento vazado, cada manchete de jornal que estampa a falha do sistema de inteligência, é um prego no caixão da popularidade do Planalto. O objetivo aqui não é, necessariamente, resolver o problema do crime. É criar uma narrativa. Uma narrativa de fracasso, de descontrole. É munição para a próxima eleição.
Do outro lado, você tem o governo. Pego de surpresa ou não, ele precisa reagir.
A primeira opção seria tentar melar a CPI. Obstruir. Dizer que “não há fato determinado” ou que “isso atrapalha as investigações sérias”. Mas isso tem um custo de imagem terrível. Soa como confissão.
A segunda opção, que é quase sempre a escolhida, é muito mais sutil. É participar do jogo. É colocar os seus aliados lá dentro. Na presidência da comissão. Na relatoria. É, essencialmente, entrar na sala de controle da investigação.
Não é para impedir a CPI. É para controlar a CPI.
É para garantir que a investigação vá só até a página dois. Que ela mire apenas em peixes pequenos, ou em inimigos políticos convenientes. É para garantir que o verdadeiro núcleo do problema, aquele que conecta o crime com o grande poder econômico e político, permaneça nas sombras.
É a famosa “CPI com final em pizza”. Onde todo mundo grita, posa para a foto de herói, mas a cozinha, o forno, os ingredientes… permanecem intactos.
E enquanto esse xadrez é jogado nos corredores de mármore com ar-condicionado, o que acontece na vida real?
O que acontece com o pequeno comerciante, lá na ponta, que tem que pagar a “taxa de proteção” para a milícia ou para o tráfico? O que acontece com a mãe que vê o filho ser aliciado pelo “tribunal do crime” na porta da escola?
O crime organizado não é um conceito abstrato de jornal. É uma máquina de moer vidas, que opera na mais absoluta certeza da impunidade.
Essa máquina não funciona porque é genial. Ela funciona porque ela é permitida.
A infiltração que a CPI promete investigar não é uma ameaça futura. Ela já aconteceu. Ela é o alicerce de muita coisa que a gente chama de “normalidade”.
O que mais assusta é a possibilidade de que essa máquina… seja, em alguns aspectos, o próprio Estado. Ou, pelo menos, uma parte dele que se tornou indistinguível do crime.
Então, a gente volta à pergunta inicial. A CPI do Crime Organizado foi criada para investigar ou para esconder?
O grande paradoxo da política brasileira é que ela, muito provavelmente, fará os dois.
Ela vai expor certos crimes, certos nomes, certos esquemas… para proteger outros, muito maiores.
Ela é, na sua essência, um instrumento de controle de danos. Uma ferramenta para delimitar até onde o público pode saber. Ela cria uma cortina de fumaça tão densa, com tantas pequenas revelações, que a gente se distrai do incêndio principal.
O verdadeiro poder não é quem comente o crime. O verdadeiro poder é quem decide o que é crime.
E, nesse caso, o poder é quem decide qual crime organizado merece ser investigado… e qual deve continuar operando em silêncio.
No fim do dia, talvez a gente espere demais de uma CPI.
Talvez a gente, como sociedade, ainda acredite que a solução para os problemas profundos do Brasil virá de um grande evento televisionado. De um depoimento bombástico, de um relatório final heroico.
Mas a mudança real é mais silenciosa. Ela é mais difícil.
A verdadeira batalha contra o “crime organizado” não é só a da polícia ou da política. É a batalha da educação. Da oportunidade. Da integridade. Da decência. É a batalha para que o crime deixe de ser o único caminho viável para tanta gente.
Mas eu quero saber de você.
Você ainda acredita no poder de uma CPI para mudar o país? Ou você acha que isso é só mais fumaça, mais teatro, para distrair a gente do que realmente importa?
Deixa sua opinião aqui nos comentários. A gente precisa ter essa conversa.