A nova faixa do imposto de renda foi aprovada. Uma mudança sutil, quase técnica, que mexe na vida de milhões de pessoas.
Mas esse ajuste, como quase toda discussão sobre dinheiro público no Brasil, não é o evento principal. Ele é só a cortina de fumaça para algo muito maior.
Pensa comigo.
Como foi que chegamos num ponto em que o gerente de banco, o coordenador de marketing, o engenheiro júnior… aquele que rala muito e ganha seus dez, doze mil reais por mês… está genuinamente convencido de que o grande problema do Brasil…
…é o porteiro do prédio dele, que ganha mil e quinhentos?
Como o topo da pirâmide, os que faturam cem, duzentos, quinhentos mil por mês… saíram completamente dessa equação?
Essa não é uma discussão sobre impostos.
É uma discussão sobre a anatomia de uma mentira. A fraude intelectual mais bem-sucedida da história recente do país.
Para entender essa mentira, a gente precisa entender que ela é, na sua essência, uma campanha de marketing. Talvez a mais cínica de todas.
O objetivo dessa campanha é um só: gerenciamento de foco.
Se você é da área de comunicação, você sabe do que eu estou falando. Não importa a realidade; o que importa é para onde a câmera está apontada.
E no Brasil, a câmera sempre aponta para baixo.
O debate público, seja na televisão, no congresso ou na mesa do bar, é obcecado pelo custo do pobre.
Discutimos por horas o impacto do Bolsa Família. Fazemos contas de centavos sobre o auxílio-gás. Criamos teorias complexas sobre como o seguro-desemprego está “desestimulando” o trabalho.
O pobre é auditado, fiscalizado, questionado e, acima de tudo, culpado.
Ele é o “peso”. O “custo”. O “ralo” por onde o dinheiro público desaparece.
E quem é que mais compra essa narrativa?
Não é o milionário. Ele não compra. Ele cria essa narrativa.
Quem compra… é o cara que ganha dez mil.
A classe média.
Ele compra porque ele está espremido. Ele olha pra baixo e vê uma multidão que, na visão dele, está recebendo as coisas “de graça”. Coisas que ele precisa pagar. E pagar caro.
Ele paga o plano de saúde, porque o SUS não dá conta. Ele paga a escola particular, porque a pública não entrega. Ele paga o pedágio, o IPVA, a gasolina cara…
E na hora de pagar o imposto de renda, ele sente a mordida. É uma mordida real, dolorosa.
E quando ele pergunta “para onde está indo o meu dinheiro?”, a grande campanha de marketing responde imediatamente, apontando a câmera para baixo:
“Está indo para o vagabundo.”
É uma resposta simples. Confortável. E ela oferece um inimigo claro.
O que essa campanha não faz… é virar a câmera para cima.
Porque se o cara dos dez mil olhasse para cima, ele descobriria coisas fascinantes.
Ele descobriria que o dono da empresa onde ele trabalha, muitas vezes, paga menos imposto de renda proporcional do que ele.
Como?
Simples. O salário do cara de dez mil é tributado na fonte. É trabalho. O imposto sobre o trabalho no Brasil é selvagem.
Já o dono da empresa? Ele não tem um “salário” de cem mil. Ele recebe “lucros e dividendos”. E lucros e dividendos, no Brasil, são… isentos.
Zero.
O cara que ganha dez mil por mês, trabalhando oito, dez horas por dia, paga até 27,5% sobre o que ganha. O cara que ganha cem mil por mês, sentado no conselho da empresa, vendo o dinheiro render… paga zero sobre essa distribuição.
Isso não é uma anomalia. Isso é um projeto.
Mas a mentira vai além.
Quando o debate é sobre a reforma tributária, o que ouvimos? Que não podemos “taxar o empresário”, senão ele vai embora do país. Que não podemos taxar a herança, senão “desestimula” as famílias. Que não podemos taxar grandes fortunas, porque “é difícil de calcular”.
Mas taxar o salário do trabalhador? Ah, isso é fácil. Isso é “justiça fiscal”.
Saca só a armadilha psicológica que foi criada.
O sujeito de dez mil foi convencido a se identificar com o de cem mil, e não com o de mil.
Ele foi levado a acreditar que ele é um “milionário em treinamento”. Que ele é um “vencedor”, e que o porteiro do prédio é um “perdedor”.
Ele defende a isenção de dividendos… na esperança de um dia, quem sabe, também receber dividendos.
Ele defende a não-taxação de heranças… sonhando com a herança que ele provavelmente não vai deixar.
Ele é o soldado da linha de frente, defendendo o castelo do rei, acreditando que um dia o rei vai convidá-lo para entrar.
E o rei… o rei aplaude.
Porque enquanto o gerente e o porteiro brigam no térreo sobre quem merece mais o elevador, o rei está na cobertura, tomando helicóptero, isento de impostos e da própria discussão.
Essa distorção cria a cena mais comum do Brasil: a classe média lutando com unhas e dentes contra políticas que, no fim das contas, a beneficiariam… e defendendo privilégios que ela mesma não possui.
Ela briga contra o SUS, que ela mesma usaria se perdesse o emprego. Ela briga contra a universidade pública, que ela não pode pagar. Ela briga contra o “custo” do pobre… e financia o luxo do rico.
Então, quando você vir a próxima notícia sobre a faixa do imposto de renda… não se pergunte apenas quanto mudou.
Pergunte-se: sobre quem estamos falando?
Estamos, de novo, discutindo os centavos do salário… ou estamos, finalmente, discutindo os milhões dos dividendos?
A mentira perfeita foi contada.
Os que ganham 100 mil convenceram os que ganham 10 mil que o problema do Brasil são os que ganham 1 mil.
O resultado?
O de 100 mil continua ganhando 100 mil, pagando quase nada. O de 10 mil continua ganhando 10 mil, pagando por todos. E o de 1 mil continua sendo o culpado por tudo.
O que o cara dos dez mil ainda não entendeu é que, para o topo da pirâmide, para o cara dos cem mil… ele, o gerente, o coordenador…
…ele é só um porteiro com um salário um pouco melhor.
Essa é a arquitetura da fraude. É o que eu vejo quando leio essas notícias.
Mas eu queria saber de você.
No seu dia a dia, na sua família, no seu trabalho… você também sente essa distorção?
Você já se pegou culpando a pessoa errada pela conta que não fecha no fim do mês?
Me conta o que você pensa.