Você já acordou, pegou o celular, e antes mesmo de tomar o primeiro gole de café, sentiu um peso no peito? Não é tristeza. É uma exaustão específica. Uma ressaca moral sem ter bebido uma gota de álcool.
Você abre o feed e é sempre a mesma coisa. As mesmas prisões, os mesmos salvadores da pátria, a mesma guerra de narrativas onde todo mundo grita e ninguém escuta. E a sensação que fica é que estamos presos num loop temporal, revivendo o mesmo dia ruim eternamente.
Mas pensa comigo: e se eu te dissesse que esse cansaço que você sente agora não é um efeito colateral? E se essa náusea digital for, na verdade, o produto final mais valioso do mercado hoje?
Bem-vindo ao outro lado da tela. Hoje a gente precisa conversar sobre o preço do seu silêncio.
Às vezes o calor aperta e a gente busca a sombra. É instintivo. O corpo pede pausa. Mas no ambiente digital, a sombra foi abolida.
No marketing digital, existe um conceito que a gente estuda a fundo chamado Economia da Atenção. Mas nos últimos anos, esse termo evoluiu para algo muito mais perverso: a Economia da Indignação.
Saca só.
As plataformas que habitamos não são praças públicas; são cassinos. E a moeda de troca nesse cassino não é o seu dinheiro, é a sua resposta emocional. O Jaron Lanier, que é um dos pais da realidade virtual e hoje um crítico ferrenho desse modelo, bate muito nessa tecla. Ele explica que emoções negativas, como medo, raiva e indignação, viajam muito mais rápido e fixam muito mais a atenção do que emoções positivas ou neutras.
Então, quando você vê essa guerra de narrativas interminável sobre prisões, golpes e contragolpes, você não está vendo política. Você está vendo uma estratégia de retenção de usuário baseada em dopamina e cortisol.
É aqui que a porca torce o rabo.
Para o algoritmo, não importa se você ama ou se você odeia o sujeito da notícia. Importa que você interaja. O ódio gera engajamento. A defesa apaixonada gera engajamento. O textão explicando por que o outro lado está errado gera engajamento.
O sistema foi desenhado para manter a sociedade em um estado de guerra civil fria permanente. Porque a paz… a paz é péssima para os negócios. Se todo mundo concordasse, ou se simplesmente parássemos de nos importar com a última polêmica de Brasília, o tempo de tela cairia drasticamente. E as ações das big techs despencariam junto.
Seth Godin, um dos maiores nomes do marketing moderno, fala muito sobre a Tribo. Nós, seres humanos, temos uma necessidade biológica de pertencer a um grupo. O marketing político sequestrou esse instinto. Eles transformaram a política em torcida organizada, onde a identidade do grupo é definida não pelo que eles amam, mas pelo que eles odeiam em comum.
Isso explica por que você está exausto. O seu cérebro não foi feito para processar crises existenciais a cada 15 segundos de rolagem de tela. Nós evoluímos para lidar com o perigo de um leão na savana, resolver o problema e relaxar.
Hoje, o leão está no seu bolso. E ele ruge o dia inteiro.
Eu confesso para vocês… tem dias que eu também quase cedo. Como professor, a minha ferramenta de trabalho é a informação. Eu preciso saber o que está acontecendo para ensinar, para contextualizar. Mas a linha entre estar informado e estar intoxicado é muito tênue.
Às vezes, eu me pego lendo uma manchete bombástica e sinto aquele calor subindo, aquela vontade de comentar, de compartilhar, de lacrar ou mitar. É quase físico. É o sistema hackeando a minha biologia.
Mas aí eu olho pela janela, vejo a poeira assentando na estrada, vejo a vida acontecendo num ritmo que não cabe num tweet… e eu lembro que a realidade não é o algoritmo.
A realidade é complexa. As pessoas são contraditórias. Ninguém é o vilão de desenho animado ou o herói imaculado que as narrativas tentam vender. Essa simplificação binária — preto no branco, nós contra eles — é uma ferramenta de marketing para vender certeza num mundo incerto.
E comprar essa certeza custa a sua paz.
Então, o que a gente faz? Se a gente sabe que a guerra de narrativas é, na verdade, uma disputa de mercado pela nossa atenção, a única rebeldia possível é a autonomia.
Não é sobre alienação. Não é sobre enfiar a cabeça na terra e ignorar a política. É sobre escolher quando e como você consome isso. É sobre entender que o seu ultraje está enchendo o bolso de alguém, e esse alguém não está nem aí para o futuro do país.
A verdadeira liberdade hoje não é gritar mais alto na internet. É a capacidade de ver uma provocação, sentir o gatilho emocional sendo puxado, e escolher não disparar.
Recuperar o tédio. Recuperar o silêncio. Recuperar a conversa longa, chata e cheia de nuances, longe dos holofotes das redes. Isso é um ato revolucionário.
A gente fala muito sobre limpar a alimentação, fazer exercício, cuidar do corpo. Mas a gente esquece de fazer a higiene da nossa atenção.
Eu queria deixar uma provocação pra você hoje, não como o professor de marketing, mas como alguém que também está tentando navegar nesse mar revolto:
Qual foi a última vez que você mudou de opinião sobre algo importante, não porque foi pressionado ou gritado, mas porque parou, silenciou o ruído e realmente pensou sobre o assunto?
Pensa nisso. E se puder, larga o celular um pouco. A vida real está acontecendo lá fora, e ela não tem algoritmo.
Um abraço.
…
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LANIER, Jaron. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais. Editora Intrínseca, 2018.
GODIN, Seth. Tribos: Nós precisamos que vocês nos liderem. Editora Alta Books, 2009.
HOLIDAY, Ryan. Acredite, estou mentindo: Confissões de um manipulador das mídias. Editora Portfolio-Penguin, 2012.