Você já parou pra pensar… como foi que o Brasil mudou tanto, e tão rápido?
Como foi que a fé, para milhões de pessoas, deixou de ser sobre comunidade, sobre partilha, sobre o “dividir o pão”… e passou a ser sobre ter? Sobre prosperar. Sobre o carro do ano, sobre a lógica do mérito, sobre o sucesso individual.
Como foi que o cristianismo, nascido de um homem que pregava o voto de pobreza… se tornou o maior fiador do capitalismo mais selvagem?
Eu moro em Novo Progresso, no sul do Pará. E daqui, do meio da Amazônia, essa pergunta não é filosófica. Ela é diária. Ela tem a ver com a terra, tem a ver com política, e tem a ver com poder.
E se eu te disser que essa transformação… não foi um acidente?
E se eu te disser que ela foi o resultado de uma das campanhas de marketing ideológico mais bem-sucedidas do século 20? Um projeto… que não nasceu aqui.
Ele nasceu em outro lugar. E tinha um objetivo muito claro.
Pensa comigo.
Logo depois da Segunda Guerra Mundial, o mundo se dividiu em dois. Estados Unidos, de um lado. União Soviética, do outro. Capitalismo contra Comunismo.
Não era só uma disputa militar. Era uma disputa por mentes e corações. Era uma guerra cultural.
E aqui, na América Latina, algo preocupava profundamente os americanos. Um movimento que estava crescendo dentro da própria Igreja Católica.
Eles o chamavam de “Teologia da Libertação”.
Eram padres, freiras, bispos, que olhavam para a pobreza extrema do continente e diziam: “Isso está errado”. Eram pessoas que liam a Bíblia e viam nela um chamado à justiça social. À igualdade. Ao amor aos pobres.
Um bagulho meio… socialista.
Eles não falavam em enriquecer. Eles falavam em dividir.
Para os estrategistas em Washington, a Teologia da Libertação era um cavalo de Troia. Era a porta de entrada para o comunismo no quintal deles.
Eles precisavam de um antídoto. Uma contra-narrativa.
Se a Teologia da Libertação dizia “bem-aventurados os pobres”… eles precisavam de uma teologia que dissesse “bem-aventurados os ricos”.
Eles não precisaram inventar do zero.
Nos Estados Unidos, já existia um movimento… uma ideia de que a fé e o sucesso financeiro andavam de mãos dadas. A ideia de que Deus quer que você seja rico. Que a sua prosperidade material é um sinal da sua bênção espiritual.
A “Teologia da Prosperidade”.
Era o produto perfeito.
Ele pegava a religião, que é o aparato de domínio de mentes mais antigo e eficiente da história, e a fundia com o ideal do american way of life. Consumo. Individualismo. Mercado.
O historiador Rodrigo de Sá Neto, em sua pesquisa, documenta como isso foi organizado. Lá nos anos 50, os EUA criaram fundações, como a “Frasco”, que unia líderes religiosos de várias frentes… católicos, judeus, evangélicos… com um único propósito: definir o comunismo como uma “ameaça espiritual”.
O comunismo era o ateísmo. Era o anti-Deus.
E o capitalismo? O capitalismo era a própria vontade de Deus.
Com o “produto” e a “estratégia” definidos, faltava implementar a campanha.
E o Brasil, claro, era o alvo principal. O “quintalzão”.
Saca só. Isso não foi sutil.
Eles mandaram missionários. Milhares deles, desembarcando aqui décadas atrás.
Em 1951, um americano chamado Harold Williams funda a “Igreja do Evangelho Quadrangular”.
Pouco depois, outro americano, Robert McAllister, funda a “Igreja de Nova Vida”.
Esses homens não estavam aqui só para pregar a Bíblia. Eles estavam aqui para pregar o “evangelho do dinheiro”.
Eles foram os “influencers” originais. Eles plantaram a semente. E criaram o molde que depois seria copiado e aperfeiçoado por líderes brasileiros… como o próprio Edir Macedo.
O objetivo era claro: combater a Teologia da Libertação.
Onde um padre dizia “você tem direito à sua terra”… o missionário da prosperidade dizia “você tem direito a ter dinheiro”.
E agora eu volto aqui pra Novo Progresso.
Sabe quem foi um dos principais alvos dessa campanha de marketing?
Os povos originários.
Aqui na bacia do Tapajós, onde eu vivo, as comunidades indígenas eram… e ainda tentam ser… autossuficientes. A relação deles é com a terra, com o coletivo, com a cultura.
Os missionários da Teologia da Libertação, muitas vezes, iam até eles e falavam sobre a importância de preservar a cultura. De demarcar a terra. Isso, claro, batia de frente com os interesses dos militares e dos grandes proprietários.
Aí, chegam os missionários da prosperidade.
E o que eles dizem?
Eles dizem que os rituais de cura são coisa do diabo. Que a língua nativa é primitiva. Que a vida na aldeia é pobreza. E pobreza, lembra? É falta de fé.
Eles destroem a cultura. Eles destroem a autossuficiência.
Eles transformam comunidades inteiras em mão de obra barata. Em dependentes. Dependentes da igreja, do fazendeiro, da ONG.
Eles abrem caminho. Literalmente.
Quando você tira o valor espiritual da terra… você abre caminho para o trator. Para o garimpo. Para o agro.
O “evangelho do dinheiro” foi o lubrificante espiritual para o avanço da fronteira agrícola. Eu não estou lendo isso num livro. Eu vejo isso da janela de casa.
Uma campanha de marketing precisa dar resultado. E essa deu.
O que começou como uma infiltração religiosa, virou uma infiltração política.
Já na constituinte de 86, essa nova força evangélica… financiada e organizada… conseguiu eleger dezenas de candidatos. Sessenta.
Eles começaram a mexer os pauzinhos.
Aquele dinheiro americano dos anos 50, 60 e 70… estava dando frutos.
Eles apoiaram prefeitos. Governadores. Como o Maluf, em São Paulo.
Eles se tornaram uma força política.
Eles cresceram. O número de evangélicos no Brasil explodiu. E a influência deles no Congresso Nacional, também.
Até que chegamos aos dias de hoje.
Quando você vê a bancada evangélica ditando os rumos da política nacional…
Quando você vê igrejas ligadas ao 8 de Janeiro…
Quando você vê pastores trocando figurinhas com o governo Bolsonaro, e com grupos evangélicos gringos…
Você não está vendo um movimento espiritual espontâneo.
Você está vendo o retorno sobre o investimento.
Aquele paradoxo, do começo do texto… não é um paradoxo.
É um projeto.
A transformação da fé no Brasil foi uma decisão estratégica. Uma operação de influência que começou lá na Guerra Fria.
O objetivo nunca foi salvar almas.
O objetivo era salvar o capitalismo.
Os Estados Unidos precisavam garantir que o maior país da América Latina continuasse sendo seu “quintal”. E para isso, eles usaram a ferramenta mais poderosa que existe: a fé.
Eles não venderam um produto. Eles venderam uma nova versão de Deus. Um Deus que se parece muito… com o Tio Sam.
Aqui no Pará, quando eu converso com as pessoas, eu vejo a eficiência dessa campanha.
Muitos não querem saber de justiça social. Eles querem a bênção individual. Eles não querem a comunidade. Eles querem a prosperidade.
Eles querem que Deus lhes dê um carro. Uma loja. Uma vida melhor.
Eles foram ensinados a associar a pobreza à falta de fé.
E é difícil culpar alguém por querer uma vida melhor…
Mas o resultado disso… é que a força que deveria lutar pelo povo, muitas vezes é a força que vota contra ele. Vota contra os indígenas. Vota contra o meio-ambiente. Vota a favor do capital.
A campanha foi um sucesso absoluto.
Mas agora, eu queria te ouvir.
Aí na sua cidade… seja ela uma metrópole ou uma cidade pequena como a minha…
Como é que você vê essa mistura?
Essa mistura entre fé, dinheiro e poder. Você também sente que a religião foi… sequestrada por um projeto político?
Me conta aqui nos comentários. Eu leio tudo.
Até a próxima.