A GRANDE ALUCINAÇÃO COLETIVA QUE VOCÊ COMPROU HOJE

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

Disseram que o país iria parar. Profetas do apocalipse, de todos os lados do espectro ideológico, garantiram que, no momento em que a notícia da prisão saísse — ou a mera ameaça dela —, o Brasil entraria em convulsão. Que o chão tremeria.

Bem… eu olhei pela janela aqui. O sol continuava castigando o asfalto e a terra com a mesma indiferença de sempre. O rapaz da entrega passou de moto. O caminhão carregado de grãos seguiu seu rumo na BR-163.

O Brasil que eu habito não parou. Na verdade, o Brasil real não parou nem para almoçar.

E isso nos leva a uma pergunta desconfortável, que talvez doa um pouco no ego de quem vive conectado: se o mundo digital estava pegando fogo e o mundo real seguia gelado… qual dos dois mundos é a mentira?

Para entender esse abismo entre o que a tela do seu celular grita e o que a rua sussurra, a gente precisa falar sobre “A Economia da Atenção”.

Pensa comigo.

No marketing digital, existe um conceito que a gente ensina, mas que raramente aplica na própria vida: a Heurística da Disponibilidade. Quem explica isso brilhantemente é o Daniel Kahneman. Basicamente, o seu cérebro julga a importância de um evento não pela frequência real com que ele acontece, mas pela facilidade com que você consegue lembrar de exemplos dele.

Se o seu feed, desenhado por algoritmos que lucram com a sua ansiedade, te mostra dez vídeos seguidos de pessoas gritando, chorando ou celebrando o caos político, o seu cérebro primitivo entende que a “tribo” inteira está em guerra. A sua amígdala dispara. Você sente o perigo físico.

Mas aqui no Pará, onde a distância entre as coisas é medida em horas de estrada e não em cliques, a perspectiva muda.

Ontem, enquanto o Twitter — ou o X, chame como quiser — decretava o fim dos tempos por causa de depoimentos e operações policiais, eu fui comprar pão. A padaria estava cheia. Sabe sobre o que as pessoas falavam? Sobre o preço do ar-condicionado. Sobre a conta de luz. Sobre a safra.

Existe um termo técnico para isso que o Eli Pariser chama de “O Filtro Bolha”. Mas eu prefiro uma metáfora mais orgânica, mais nossa.

Imagine que você está dentro de uma discoteca com isolamento acústico. A música está altíssima, as luzes piscam, todo mundo está suando, gritando, numa energia frenética. Parece que o mundo inteiro é aquela festa, aquele barulho.

Aí você abre a porta de emergência e sai para a rua. É noite. Silêncio. Um grilo canta. Um carro passa longe.

A política brasileira virou essa discoteca. Quem está dentro, acha que o universo se resume àquela batida. Quem está fora, está apenas tentando sobreviver, pagar boleto, viver a vida real.

O marketing político, e aqui eu falo como professor, aprendeu a sequestrar a nossa percepção de realidade. Eles vendem a urgência. Eles vendem o “agora ou nunca”. Porque se você perceber que o país continua rodando, independentemente de quem está com a caneta ou de quem está com as algemas… você perde o medo. E sem medo, você não clica. Sem medo, você não compartilha.

A prisão de um ex-presidente, ou a não prisão, é um fato histórico? Sem dúvida. É relevante? Absolutamente. Mas a ideia de que o Brasil “pararia” é uma alucinação de quem confunde o mapa com o território. O mapa é o seu feed. O território é a vida que acontece quando a bateria acaba.

A grande lição que fica, observando a poeira baixar — ou melhor, observando que a poeira nunca nem levantou por aqui — é sobre a nossa soberania mental.

O marketing, em sua essência mais perversa, tenta nos convencer de que somos protagonistas de um filme de ação constante. Mas a vida real é muito mais lenta, burocrática e silenciosa. E isso é bom.

O Brasil não parou porque o Brasil é maior que seus políticos. É maior que seus juízes. E, definitivamente, é muito maior e mais complexo do que os trending topics.

A institucionalidade tem seu ritmo, a justiça tem seu rito, e a colheita tem seu tempo. Nenhum tweet, por mais viral que seja, consegue acelerar o crescimento da soja ou parar um caminhão na 163 apenas com a força da indignação.

Então, da próxima vez que o seu celular disser que o céu está caindo, faça um teste empírico.

Largue o aparelho. Caminhe até a janela. Olhe para a rua. Veja se as árvores continuam lá. Se as pessoas continuam andando. Se o mundo físico confirmou a catástrofe digital.

Na maioria das vezes, você vai descobrir que o apocalipse foi adiado por falta de interesse da realidade.

Mas me diz você, aí nos comentários: quando foi a última vez que você sentiu essa desconexão brutal entre o pânico das redes e a calmaria da sua rua? Você acha que a gente está viciado em crises que não existem?

Vamos conversar.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  1. KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
  2. PARISER, Eli. O Filtro Invisível: O que a internet está escondendo de você. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
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