A FALÊNCIA DO PROJETO: O RIO É UM FRACASSO ANUNCIADO

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

Amanheceu com notícia de operação no Rio de Janeiro.

De novo.

As mesmas imagens de sempre. O helicóptero pairando baixo, o som intermitente de rajadas que a TV tenta abafar, as escolas fechadas, os ônibus incendiados. E uma sensação de cansaço coletivo, uma exaustão cívica que parece cobrir o país, de Novo Progresso, aqui no Pará, até a Baixada Fluminense.

A gente assiste a isso… e sente que já viu esse filme. A gente sabe o final. Nada muda.

Mas a pergunta que eu me faço, não como especialista em segurança, mas como alguém que estuda comunicação e projetos, é: e se essa repetição não for um bug no sistema?

E se a “guerra” for, na verdade, um produto que falhou… mas que continua sendo vendido pra gente, todo santo dia, com uma nova embalagem?

Pensa comigo. Eu passo meus dias aqui no Pará explicando para alunos e clientes como funciona o marketing. Você tem um problema, você cria um produto ou serviço para resolvê-lo, você faz uma promessa e, o mais importante, você entrega essa promessa. Se você promete “matar a sede” e seu refrigerante não mata, você falha. Se você promete “conexão rápida” e sua internet cai, você falha.

O cliente para de comprar. O projeto acaba.

Agora, olhemos para a segurança pública no Rio de Janeiro como um projeto.

A promessa é clara: “Vamos acabar com o crime”. “Vamos retomar o território”. “Vamos trazer a paz”. É um marketing poderoso, urgente, que fala direto com o nosso medo mais primitivo: o medo da violência, do caos.

E qual é o produto oferecido para cumprir essa promessa? A operação. A incursão policial. O confronto.

O problema é que, há décadas, o resultado dessa entrega é… pífio.

Vamos aos fatos, para além da fumaça dos pneus queimados. As operações acontecem. Elas apreendem algumas armas, alguma quantidade de droga. Prendem alguns varejistas do tráfico. No dia seguinte, ou na semana seguinte, a “boca” reabre. As armas são repostas. Os “soldados” presos são substituídos.

A estrutura… a logística… o poder financeiro que lava o dinheiro… os grandes fornecedores… tudo isso permanece intacto.

O que nós estamos assistindo não é uma estratégia de segurança. É o que o jornalismo chama de “enxugar gelo”. É a definição clássica de insanidade: fazer a mesma coisa, repetidamente, esperando um resultado diferente.

Se qualquer empresa privada no Brasil entregasse um resultado tão desastroso, ela já teria falido. Seus diretores teriam sido demitidos. O projeto seria cancelado e repensado do zero.

Mas o Estado… o Estado não fale.

Ele apenas dobra a aposta.

Aqui em Novo Progresso, nós conhecemos bem os desafios de um Brasil profundo. A gente vê os problemas da BR-163, a grilagem, o desmatamento, a ausência do Estado em muitos lugares.

Mas o que acontece no Rio é diferente. Não é o Estado ausente. É o Estado presente… mas da pior forma possível.

É o Estado que só sabe se comunicar com uma parte da sua própria população através da força bruta. É o Estado que trata a favela não como parte da cidade, não como um lar de trabalhadores, estudantes, artistas… mas como um território inimigo a ser ocupado.

E essa é a maior falha do marketing dessa guerra.

Quando você vende o produto “operação policial”, o que você está comunicando, na prática? Você está dizendo para o morador daquela comunidade que ele é, na melhor das hipóteses, um dano colateral aceitável. Que a vida dele vale menos. Que a infância do filho dele, que não pode ir à escola por causa do tiroteio, é um preço que a sociedade “de bem” está disposta a pagar.

A confiança, que é a moeda fundamental de qualquer relação – seja de uma marca com seu cliente, seja do Estado com seu cidadão – essa confiança é destruída. Ela é moída, todo santo dia.

E sem confiança, não existe política pública. Não existe informação. Não existe comunidade. Só existe medo.

Então, por que o projeto continua? Se o produto não funciona, por que ele continua sendo vendido?

Ah…

Porque o objetivo do projeto, talvez, não seja resolver o problema.

O objetivo é a performance.

A operação é uma peça de teatro trágica. Ela serve para o governador dar uma coletiva de imprensa e dizer que “está trabalhando”. Ela serve para gerar imagens de impacto para o telejornal da noite. Ela serve para alimentar uma narrativa de “nós contra eles”, que é politicamente muito lucrativa.

É o marketing da violência.

A operação não é uma solução. A operação é o produto. Um produto que consome bilhões de reais, que consome vidas de policiais, que consome vidas de moradores… e que não entrega nada além do próprio espetáculo da sua execução.

Estamos presos num ciclo de feedback terrível. A violência justifica a operação, que gera mais violência, que justifica a próxima operação.

O “aha!”, o momento de clareza aqui, é doloroso.

A falência do projeto de segurança no Rio de Janeiro é intencional. Não é uma falha de execução; é um sucesso de objetivo. O objetivo nunca foi a paz. O objetivo é a manutenção desse exato status quo.

Um status quo onde o poder real – o dinheiro, a rota, a lavagem, as conexões políticas – nunca é tocado. E onde o sangue derramado, quase sempre preto e pobre, serve apenas como justificativa para a próxima temporada dessa série macabra.

A gente se acostumou com o roteiro. A gente sabe o que acontece com o policial na ponta da linha. A gente sabe o que acontece com a mãe que perde o filho.

A gente só não sabe como cancelar essa assinatura.

Aqui de longe, do Pará, olhando para o Rio, a sensação é de uma tragédia anunciada que se recusa a terminar. A gente, do outro lado da tela, fica com o gosto amargo da impotência.

Mas a pergunta que não quer calar, e que eu deixo para você, é: até quando?

Até quando a gente vai assistir a esse filme e fingir que está surpreso com o final? O que precisa acontecer para o Brasil entender que o projeto faliu, e que a gente precisa, desesperadamente, escrever um roteiro novo?

Mas me conta você. Quando você vê essas notícias… de novo… o que você sente

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