Série Mídia e informação na era do GPT, parte 13 de 13. Este ensaio encerra a série com o tema juventude e inteligência artificial: o que as pesquisas dizem sobre a relação de crianças e adolescentes com as telas, como os dados da TIC Kids Online Brasil mostram a chegada da IA generativa ao cotidiano dos jovens e o que as ideias de Sonia Livingstone e danah boyd ensinam para evitar tanto o pânico quanto a ingenuidade.
Cada nova mídia trouxe consigo uma onda de preocupação com os jovens. Romances, cinema, histórias em quadrinhos, televisão, videogames e redes sociais foram, em seus momentos, acusados de corromper, distrair ou isolar a juventude. Algumas dessas preocupações se mostraram exageradas; outras apontavam riscos reais. Com os assistentes de IA, a discussão recomeça com uma particularidade: pela primeira vez, a tecnologia não apenas transmite conteúdos, mas conversa, responde, aconselha e faz companhia.
Para estudantes e profissionais de marketing, comunicação, educação e tecnologia, o tema exige equilíbrio. Muitos produtos e campanhas alcançam crianças e adolescentes, e a legislação brasileira passou a impor deveres específicos a quem atua nesse público. Ao mesmo tempo, educadores e famílias precisam de informação confiável, não de alarmismo. Este texto apresenta os dados brasileiros mais recentes, as contribuições de Livingstone sobre riscos e oportunidades, a perspectiva de boyd sobre a vida social dos adolescentes em rede, o debate sobre telas e saúde mental, os primeiros dados sobre jovens e chatbots e os novos marcos legais, terminando com aplicações e caminhos de pesquisa.
Os dados brasileiros: TIC Kids Online
A pesquisa TIC Kids Online Brasil, realizada pelo Cetic.br, do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, investiga desde 2012 o uso da internet por crianças e adolescentes de 9 a 17 anos. A edição de 2025 entrevistou presencialmente, entre março e agosto daquele ano, 2.370 crianças e adolescentes e o mesmo número de pais ou responsáveis em todo o país (CGI.br, 2026).
Segundo o resumo executivo, 92% das pessoas de 9 a 17 anos eram usuárias de internet, o equivalente a cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes. A proporção crescia com a idade, de 87% entre os de 9 e 10 anos a 95% entre os de 15 a 17. As desigualdades diminuíram ao longo da série histórica: entre as classes D e E, a proporção de usuários passou de 66% em 2016 para 87% em 2025. O celular continua sendo o principal dispositivo, mas a posse de celular próprio caiu entre os mais novos em relação ao ano anterior.
O dado mais relevante para esta série é o da IA generativa. Em 2025, 65% dos usuários de 9 a 17 anos haviam usado ferramentas de IA generativa para alguma finalidade. As mais citadas foram pesquisas escolares ou estudo (59%), busca de informações (42%) e criação de conteúdos como textos, imagens, vídeos ou códigos (21%). Um em cada dez disse ter usado essas ferramentas para conversar sobre problemas pessoais ou emoções. O uso também crescia com a idade, de 42% entre os de 9 e 10 anos a 75% entre os de 13 a 17 (CGI.br, 2026). Em poucos anos, portanto, a IA generativa se tornou parte da rotina de estudo e de busca de informação de uma maioria de jovens brasileiros conectados.
Livingstone: riscos não são o mesmo que danos
Sonia Livingstone, da London School of Economics, coordenou a rede EU Kids Online, que realizou um grande levantamento com crianças de 9 a 16 anos em 25 países europeus. Livingstone e colegas (2011) chegaram a uma conclusão que se tornou princípio orientador da área: risco não é o mesmo que dano. Muitas crianças encontram situações de risco online, como contato com desconhecidos ou conteúdos inadequados, mas apenas uma parte relata ter sido incomodada ou prejudicada. Além disso, as crianças que mais aproveitam as oportunidades da internet tendem a se expor a mais riscos, porque exploram mais. Restringir o acesso reduz riscos, mas também reduz oportunidades de aprendizagem, participação e criatividade.
Livingstone e Stoilova (2021) organizaram os riscos online em uma tipologia conhecida como 4Cs. Riscos de conteúdo envolvem a criança como receptora de materiais prejudiciais. Riscos de contato envolvem a criança como participante de interações iniciadas por adultos mal-intencionados. Riscos de conduta envolvem a criança como agente, por exemplo, praticando ou sofrendo cyberbullying entre pares. E riscos de contrato envolvem a criança como consumidora ou como parte de relações comerciais, incluindo coleta de dados, publicidade e mecanismos de monetização. A IA generativa toca as quatro categorias: pode gerar conteúdos inadequados, ser usada por adultos para aliciamento, facilitar a criação de imagens falsas de colegas e coletar dados em conversas íntimas.
Em uma etnografia com uma turma de adolescentes de Londres, Livingstone e Sefton-Green (2016) mostraram também que as promessas de transformação da aprendizagem pela tecnologia raramente se realizam por si mesmas. Escola, família e grupos de amigos usam as mídias digitais segundo lógicas próprias, e as conexões entre esses mundos dependem de mediação adulta e de oportunidades concretas.
boyd: a vida social em rede
danah boyd, que assina o nome em minúsculas, passou anos entrevistando adolescentes nos Estados Unidos. Em seu livro, boyd (2014) argumenta que muito do que os adultos interpretam como obsessão pelas telas é, na verdade, busca por sociabilidade. Com menos liberdade para circular pelos espaços físicos, por razões de segurança, distância ou agenda cheia, os jovens encontram nas redes um lugar para estar com os amigos. A autora descreve as características dos públicos em rede: o que se publica tende a persistir, a ser visível para muitos, a ser compartilhado e a ser encontrado por busca. Essas características fazem com que contextos diferentes, como família, escola e amigos, se misturem, fenômeno conhecido como colapso de contextos.
boyd também critica a ideia de nativos digitais. Ter crescido com tecnologia não significa saber avaliar informações, proteger a privacidade ou compreender o funcionamento dos sistemas. Essas competências precisam ser ensinadas. A crítica vale, com ainda mais força, para a IA: saber usar um chatbot não é o mesmo que entender suas limitações, tema do ensaio sobre letramento em inteligência artificial.
Telas e saúde mental: um debate aberto
Nenhum tema sobre juventude e tecnologia gera tanta controvérsia quanto a saúde mental. Haidt (2024) defende que a substituição de uma infância baseada no brincar por uma infância baseada no smartphone, a partir do início da década de 2010, causou um aumento de ansiedade, depressão e automutilação entre adolescentes, especialmente meninas. Propõe medidas como adiar o smartphone até o ensino médio, adiar as redes sociais até os 16 anos, escolas sem celular e mais autonomia e brincadeira livre no mundo físico.
Muitos pesquisadores contestam a força das evidências. Orben e Przybylski (2019) analisaram três grandes bases de dados com centenas de milhares de adolescentes e testaram milhares de combinações de variáveis. A associação entre uso de tecnologia digital e bem-estar foi negativa, mas muito pequena, explicando menos de meio por cento da variação no bem-estar. Odgers (2024), em resenha publicada na revista Nature, argumentou que as evidências disponíveis são majoritariamente correlacionais e não sustentam a afirmação de que as redes sociais causaram a crise, alertando que esse foco pode desviar a atenção de outras causas, como desigualdade, pressão escolar e falta de serviços de saúde mental. O debate segue aberto, e um ponto de consenso parece ser que os efeitos variam muito conforme o tipo de uso, o conteúdo e a vulnerabilidade de cada jovem.
Jovens e chatbots: companhia e conselho
A IA conversacional introduz uma questão nova: a relação com uma máquina que responde como se fosse uma pessoa. Uma pesquisa da organização Common Sense Media com mais de mil adolescentes de 13 a 17 anos nos Estados Unidos, divulgada em 2025, encontrou que 72% já haviam usado companheiros de IA, aplicativos ou personagens desenhados para conversas pessoais, e que cerca de metade os usava com regularidade. Parte dos entrevistados relatou ter recorrido a eles para conversar sobre assuntos sérios em vez de procurar uma pessoa (Common Sense Media, 2025). No Brasil, os 10% de jovens que usaram IA para falar de problemas pessoais ou emoções, segundo a TIC Kids Online, apontam na mesma direção.
O ensaio sobre antropomorfismo e chatbots mostrou como tendemos a atribuir características humanas a sistemas que conversam. Para adolescentes, que estão construindo identidade e relações, essa tendência merece atenção especial. Um assistente pode oferecer informação útil e um espaço de desabafo, mas não tem responsabilidade, julgamento clínico nem vínculo real. O debate sobre o uso de IA por adolescentes, incluindo dados divulgados pelas próprias empresas, foi tratado na notícia sobre os dados da OpenAI sobre adolescentes. O UNICEF (2021), em orientação sobre IA para crianças, recomenda que sistemas usados por elas priorizem o bem-estar, a privacidade, a transparência e a inclusão.
O novo quadro legal brasileiro
O Brasil aprovou recentemente duas leis relevantes para o tema. A Lei n. 15.100, de 2025, restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais pelos estudantes nas escolas de educação básica, inclusive nos intervalos, com exceções para fins pedagógicos, de acessibilidade e de saúde (Brasil, 2025a). A Lei n. 15.211, de 2025, conhecida como ECA Digital, estabelece deveres de proteção para produtos e serviços digitais direcionados a crianças e adolescentes ou de acesso provável por eles, incluindo mecanismos de verificação de idade, ferramentas de supervisão parental e configurações protetivas por padrão (Brasil, 2025b). Para empresas de tecnologia, criadores de conteúdo e profissionais de marketing que alcançam esse público, a lei amplia as responsabilidades e torna a proteção da infância uma exigência de projeto, e não apenas uma recomendação ética.
Aplicação: o que isso significa na prática
Para profissionais de marketing e conteúdo, a primeira implicação é jurídica e ética: campanhas, aplicativos e conteúdos que podem alcançar crianças e adolescentes precisam considerar os riscos de contrato descritos por Livingstone e Stoilova e as exigências do ECA Digital. Coleta de dados, publicidade dirigida e mecanismos que estimulam o uso compulsivo exigem cuidado redobrado.
Para escolas e educadores, a lição de Livingstone é equilibrar proteção e oportunidade. Proibir simplesmente o uso de IA não impede que os estudantes a usem em casa, como mostram os dados da TIC Kids Online. Ensinar a usá-la como tutor, e não como atalho, como discutido no ensaio sobre efeito Google e descarga cognitiva, e a verificar suas respostas é mais eficaz. Em uma escola de tecnologia de uma cidade do interior, por exemplo, oficinas em que os alunos comparam respostas de chatbots com fontes confiáveis ensinam ao mesmo tempo conteúdo e senso crítico.
Para famílias, a perspectiva de boyd sugere conversar mais e vigiar menos. Entender por que um adolescente usa uma plataforma ou um chatbot, quais necessidades isso atende e quais riscos envolve costuma funcionar melhor do que proibições sem explicação. Os dados da TIC Kids Online mostram que muitos pais buscam informações sobre segurança online com os próprios filhos, o que indica que o diálogo já é um canal importante.
Por fim, para quem pesquisa, o tema pede dados locais. As grandes pesquisas oferecem panoramas nacionais, mas pouco se sabe sobre como jovens de cidades pequenas, de áreas rurais ou da Amazônia usam a IA no dia a dia.
Para pesquisar: questões e caminhos para TCC
Algumas perguntas de pesquisa que partem deste ensaio:
- Como estudantes do ensino médio de uma cidade do interior usam a IA generativa para estudar, e que estratégias usam para verificar as respostas? Método sugerido: questionário seguido de grupos focais.
- Adolescentes percebem os chatbots como ferramentas, como amigos ou como algo intermediário? Método: entrevistas semiestruturadas e análise temática à luz das teorias de antropomorfismo.
- Como escolas estão implementando a Lei n. 15.100/2025, e que efeitos professores e estudantes percebem? Método: estudo de caso com entrevistas e observação.
- Aplicativos e jogos populares entre crianças brasileiras cumprem as exigências do ECA Digital sobre configurações protetivas por padrão? Método: análise documental e auditoria das configurações dos aplicativos.
Palavras-chave de busca para Google Acadêmico, SciELO e Portal de Periódicos da CAPES: “crianças e adolescentes na internet”, “TIC Kids Online”, “juventude e inteligência artificial”, “mediação parental”, “riscos e oportunidades online”; em inglês, “children’s online risks”, “networked publics”, “AI companions”, “adolescent well-being and screen time”, “4Cs of online risk”, “children’s rights in the digital environment”.
Considerações finais
A relação entre juventude e inteligência artificial já é uma realidade estatística no Brasil: a maioria dos jovens conectados usa IA generativa, sobretudo para estudar e buscar informação, e uma parte a usa para falar de emoções. Livingstone ensina a distinguir risco de dano e a não sacrificar oportunidades em nome da proteção; boyd mostra que o uso das tecnologias responde a necessidades sociais e que competência digital não vem com a idade; o debate sobre saúde mental pede rigor com as evidências. O novo marco legal brasileiro coloca a proteção da infância no centro do desenho de produtos digitais.
Com este ensaio, a série Mídia e informação na era do GPT chega ao fim. Ao longo de treze partes, percorremos a busca com chatbots, o consumo de notícias, as bolhas, a credibilidade, a leitura lateral, a leitura em telas, a descarga cognitiva, a pós-verdade, a fragmentação das audiências, a relação entre plataformas e jornalismo, o gatekeeping, o agendamento e, por fim, a juventude. O fio condutor foi uma pergunta: como continuar exercendo julgamento próprio quando máquinas passam a selecionar, resumir e redigir a informação. A resposta não está em rejeitar as ferramentas, mas em compreendê-las bem o bastante para usá-las sem abrir mão da autonomia.
Referências
BOYD, danah. It’s complicated: the social lives of networked teens. New Haven: Yale University Press, 2014.
BRASIL. Lei n. 15.100, de 13 de janeiro de 2025. Dispõe sobre a utilização, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos públicos e privados de ensino da educação básica. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2025a.
BRASIL. Lei n. 15.211, de 17 de setembro de 2025. Dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2025b.
CGI.BR. COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. Pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil: TIC Kids Online Brasil 2025: resumo executivo. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2026.
COMMON SENSE MEDIA. Talk, trust, and trade-offs: how and why teens use AI companions. San Francisco: Common Sense Media, 2025.
HAIDT, Jonathan. A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
LIVINGSTONE, Sonia et al. Risks and safety on the internet: the perspective of European children: full findings. London: EU Kids Online, London School of Economics and Political Science, 2011.
LIVINGSTONE, Sonia; SEFTON-GREEN, Julian. The class: living and learning in the digital age. New York: New York University Press, 2016.
LIVINGSTONE, Sonia; STOILOVA, Mariya. The 4Cs: classifying online risk to children. Hamburg: Leibniz-Institut für Medienforschung, Hans-Bredow-Institut, 2021. (CO:RE Short Report Series on Key Topics).
ODGERS, Candice L. The great rewiring: is social media really behind an epidemic of teenage mental illness? Nature, v. 628, p. 29-30, 2024.
ORBEN, Amy; PRZYBYLSKI, Andrew K. The association between adolescent well-being and digital technology use. Nature Human Behaviour, v. 3, p. 173-182, 2019.
UNICEF. Policy guidance on AI for children. Version 2.0. New York: UNICEF, 2021.
Como citar este texto
RÚBIO, Mélker. Juventude e inteligência artificial: telas, riscos e oportunidades segundo as pesquisas. MR Academy, Novo Progresso, 29 abr. 2027. Disponível em: https://melkerrubio.com/juventude-telas-e-ia/. Acesso em: [data do seu acesso].
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