Evolução do marketing: do mix de Borden e dos 4Ps ao Marketing 5.0

Como o conceito de marketing mudou do mix de Borden ao Marketing 5.0, e por que a história contada nos manuais merece ser lida com espírito crítico.

Evolução do marketing: do mix de Borden e dos 4Ps ao Marketing 5.0

Série Fundamentos do Marketing, parte 1 de 4. Este primeiro ensaio reconstrói a evolução do marketing como conceito e serve de base teórica para as três partes seguintes da série.

Quem começa a estudar a evolução do marketing costuma receber uma história pronta. Primeiro as empresas só produziam, depois passaram a vender com insistência, então descobriram o cliente e, finalmente, chegaram ao digital e à inteligência artificial. A narrativa é didática, mas, como quase toda história contada em etapas, simplifica demais e às vezes erra.

Entender como o conceito mudou não é curiosidade de historiador. As definições orientam o que medimos e o que consideramos sucesso: quem pensa marketing como propaganda avalia campanhas pelo alcance; quem o pensa como criação de valor olha para retenção, satisfação e reputação. Para quem prepara um TCC, escolher uma definição é também escolher uma tradição teórica.

Este texto percorre quatro movimentos: a formação do composto de marketing (o mix de Borden e os 4Ps de McCarthy), as chamadas orientações de marketing, as mudanças nas definições oficiais da American Marketing Association (AMA) e a sequência Marketing 3.0, 4.0 e 5.0 proposta por Kotler, Kartajaya e Setiawan. No caminho, apresentamos as críticas que a literatura acadêmica fez a cada uma dessas ideias.

O que se entende por marketing: definições em disputa

Não existe uma definição única e neutra de marketing. Segundo Kotler e Keller (2012), o marketing envolve identificar e satisfazer necessidades humanas e sociais de modo lucrativo, e a administração de marketing é a arte e a ciência de escolher mercados-alvo e de conquistar, manter e ampliar clientes por meio da criação, entrega e comunicação de valor superior. Essa formulação, muito usada nos cursos brasileiros de Administração, já carrega uma escolha: coloca o gestor e a empresa no centro da análise.

A definição oficial da AMA vai em outra direção. Na versão em vigor, revisada em 2017, o marketing é descrito como uma atividade, um conjunto de instituições e de processos para criar, comunicar, entregar e trocar ofertas que tenham valor para clientes, parceiros e a sociedade em geral (American Marketing Association, 2017). Note três detalhes: a palavra troca, a menção a instituições (e não apenas a empresas) e a inclusão da sociedade como destinatária de valor.

Wilkie e Moore (2007) mostram que essas palavras não estão ali por acaso. Ao comparar as definições da AMA de 1935, 1985, 2004 e a proposta que viria a ser adotada em 2007, os autores identificam uma oscilação. A primeira definição descrevia o marketing como o conjunto de atividades que levam bens e serviços dos produtores aos consumidores, uma visão sistêmica, próxima da economia. A de 1985 trocou esse olhar pelas tarefas do gestor, praticamente enumerando os 4Ps. A de 2004 concentrou-se na organização individual e na gestão do relacionamento com clientes. A revisão seguinte voltou a ampliar o escopo, incluindo a sociedade. Para Wilkie e Moore (2007), a forma como uma disciplina se define revela o que ela considera importante estudar.

Do mix de Borden aos 4Ps de McCarthy

O gestor como misturador de ingredientes

A expressão marketing mix foi popularizada por Neil Borden. Em artigo publicado em 1964, mas que retoma ideias que ele apresentava em aulas e palestras desde o fim dos anos 1940, Borden (1964) descreve o executivo de marketing como alguém que combina ingredientes, à maneira de um cozinheiro. A lista original era longa, indo do planejamento de produto e do preço à embalagem, ao serviço e à pesquisa. O ponto central do artigo não era a lista em si, mas a ideia de que essas decisões são interdependentes e precisam ser ajustadas às forças do mercado.

A síntese dos 4Ps

Poucos anos antes, McCarthy (1960) havia proposto uma simplificação que se tornaria uma das ideias mais duradouras da administração: produto, preço, praça e promoção. A força dos 4Ps está na clareza didática. Qualquer estudante consegue organizar um plano de marketing a partir deles. Essa mesma simplicidade, porém, virou alvo de críticas.

Constantinides (2006), em uma revisão ampla da literatura, reúne os principais problemas apontados ao modelo: ele é orientado para dentro da empresa, trata o consumidor como alvo passivo, não dá conta das particularidades dos serviços e do relacionamento de longo prazo e se adapta mal a ambientes interativos como a internet. Para um estudante, o importante é perceber que os 4Ps são uma ferramenta de organização de decisões, não uma teoria explicativa do mercado.

As orientações de marketing e o mito das eras

A narrativa clássica

A segunda grande ideia dos manuais é a das orientações de marketing. Kotler e Keller (2012) descrevem uma sequência de filosofias empresariais: orientação para a produção (fazer muito e barato), para o produto (fazer o melhor produto), para vendas (convencer o cliente a comprar), para marketing (descobrir o que o cliente quer e entregar) e, por fim, o marketing holístico, que integra relacionamento, marketing interno, desempenho e responsabilidade social.

Essa sequência tem raízes num texto curto e influente. Keith (1960), então executivo da Pillsbury, descreveu a história da própria empresa em fases: primeiro voltada à produção, depois às vendas e, por fim, ao marketing. No mesmo ano, Levitt (1960) publicou o célebre ensaio sobre a miopia em marketing, argumentando que empresas fracassam quando se definem pelo produto que fazem, e não pela necessidade que atendem. O exemplo das ferrovias americanas, que se viam como negócio de trens e não de transporte, tornou-se clássico nas salas de aula.

A crítica historiográfica

O problema é que um relato sobre uma empresa virou, por repetição, uma história de todo o capitalismo. Fullerton (1988) examinou registros históricos e mostrou que práticas sofisticadas de marketing, como segmentação, propaganda em massa, pesquisa de demanda e marcas fortes, já existiam no século XIX, muito antes da suposta passagem da era da produção para a era do marketing. Para o autor, a chamada era da produção é um mito, e a periodização em eras distorce a compreensão do passado. Ele propôs uma cronologia alternativa, baseada no desenvolvimento das instituições e das práticas, e não em mudanças súbitas de mentalidade.

A lição metodológica é valiosa: modelos em etapas são úteis para ensinar, mas não devem ser confundidos com evidência histórica.

A ampliação do conceito: do comércio à troca de valor

Em paralelo às discussões gerenciais, a academia ampliou o objeto da disciplina. Kotler e Levy (1969) argumentaram que o marketing não se limita a empresas com fins lucrativos: museus, igrejas, partidos e órgãos públicos também precisam entender seus públicos e comunicar valor.

Décadas depois, Vargo e Lusch (2004) propuseram outra virada, conhecida como lógica dominante do serviço. Para eles, a troca fundamental não é de bens, mas de serviço, entendido como a aplicação de competências em benefício de alguém. Os bens seriam apenas veículos desse serviço, e o valor não estaria embutido no produto, mas seria cocriado no uso, com a participação do cliente. Essa perspectiva ajudou a explicar fenômenos digitais como aplicativos, plataformas e comunidades de usuários, nos quais o cliente participa ativamente da produção de valor.

Marketing 3.0, 4.0 e 5.0: uma nova sequência de etapas

O que cada fase propõe

No século XXI, Kotler, Kartajaya e Setiawan publicaram uma trilogia que se tornou referência obrigatória em cursos de graduação e em palestras de mercado. Em Marketing 3.0, os autores descrevem a passagem de um marketing centrado no produto (1.0) e depois no consumidor (2.0) para um marketing centrado no ser humano, voltado a valores, propósito e impacto social (Kotler; Kartajaya; Setiawan, 2010).

Em Marketing 4.0, o foco passa para a integração entre online e offline. Os autores propõem que o caminho do consumidor conectado envolve etapas como conhecer, ser atraído, perguntar, agir e defender a marca, e que a recomendação de outras pessoas ganha peso diante da comunicação da empresa (Kotler; Kartajaya; Setiawan, 2017). Em Marketing 5.0, a proposta é usar tecnologias como inteligência artificial, processamento de linguagem natural, sensores e realidade aumentada para criar, comunicar e entregar valor, sem perder o foco humano. O livro organiza essa ideia em práticas como o marketing orientado por dados, preditivo, contextual, aumentado e ágil (Kotler; Kartajaya; Setiawan, 2021).

Como ler essa trilogia criticamente

Esses livros são valiosos como síntese de tendências e como vocabulário comum entre profissionais. Mas é importante diferenciar seu estatuto. Eles são obras de divulgação gerencial, escritas por autores com grande experiência, e não estudos empíricos que testam hipóteses. A numeração 3.0, 4.0 e 5.0 sugere uma progressão linear que, à luz da crítica de Fullerton (1988), merece cautela: práticas de várias fases convivem na mesma empresa, e o marketing de propósito ou o uso intensivo de dados não substituem automaticamente o trabalho básico de produto, preço e distribuição.

A ênfase em valores do Marketing 3.0 aproxima-se da definição da AMA que inclui a sociedade, e a ideia de valor cocriado lembra a lógica de Vargo e Lusch (2004). Num trabalho acadêmico, é mais robusto apoiar-se nos artigos revisados por pares e usar a trilogia como ilustração do discurso gerencial.

Da teoria à prática: o que muda para quem faz marketing digital

Em termos práticos, a evolução do conceito oferece pelo menos três lições para quem trabalha com redes sociais, sites e tráfego pago.

  1. O composto ainda importa. Uma loja de bairro pode ter perfil bonito no Instagram, mas, se o preço não faz sentido para o público, se a entrega é lenta ou se o produto não resolve um problema real, a comunicação não compensa. Os 4Ps continuam úteis como lista de verificação, inclusive para pequenos negócios que estão dando os primeiros passos no ambiente digital, como discutimos em por que o digital é o primeiro passo para pequenos negócios.
  2. O cliente participa da criação de valor. Avaliações, comentários, conteúdo gerado por usuários e indicações fazem parte do produto percebido. Essa é a intuição de Vargo e Lusch (2004) aplicada ao cotidiano de uma página no Google ou de um grupo de WhatsApp.
  3. Tecnologia não é estratégia. Ferramentas de automação e de inteligência artificial ampliam a capacidade de análise e de personalização, mas não definem o que a empresa oferece nem para quem. O debate sobre o lugar da IA no marketing ganha profundidade quando se conhece a história e as definições da inteligência artificial.

Para quem está começando, o guia o que é marketing digital e como funciona traduz esses princípios em decisões concretas.

Para pesquisar: questões e caminhos para TCC

A seguir, algumas perguntas de pesquisa que partem deste texto, com sugestões de método.

  1. Como pequenos negócios de uma cidade do interior definem marketing? Entrevistas semiestruturadas com empreendedores, analisadas por categorias, permitem comparar as definições espontâneas com as da AMA e de Kotler e Keller.
  2. Os 4Ps ainda organizam os planos de marketing de empresas digitais? Análise documental de planos de marketing ou de editais de agências, com codificação dos elementos mencionados.
  3. Como os manuais brasileiros de marketing apresentam as eras do marketing? Revisão crítica de livros-texto adotados em cursos de graduação, à luz da crítica de Fullerton (1988).
  4. Em que medida o discurso de propósito (Marketing 3.0) aparece na comunicação de marcas regionais? Análise de conteúdo de publicações em redes sociais durante um período definido.
  5. Profissionais de marketing digital percebem a lógica de cocriação de valor em seu trabalho? Survey com escalas adaptadas da literatura de lógica de serviço, seguido de análise estatística descritiva.

Palavras-chave sugeridas para o Google Acadêmico, a SciELO e o Portal de Periódicos da CAPES:

  • Em português: “conceito de marketing”, “composto de marketing”, “4Ps”, “orientação para o mercado”, “história do marketing”, “lógica dominante do serviço”, “Marketing 4.0”.
  • Em inglês: “marketing concept”, “marketing mix”, “history of marketing thought”, “market orientation”, “service-dominant logic”, “definition of marketing”.

Considerações finais

A evolução do marketing não é uma escada com degraus bem marcados, mas um campo em que definições, práticas e teorias convivem e se disputam. Os 4Ps continuam úteis, as orientações de marketing são boas ferramentas didáticas desde que não sejam confundidas com história, e a trilogia de Kotler, Kartajaya e Setiawan oferece vocabulário para discutir propósito e tecnologia. O que a literatura acadêmica acrescenta é o espírito crítico: perguntar de onde vem cada conceito, que evidência o sustenta e o que ele deixa de fora.

Na próxima parte da série, saímos do conceito para o comportamento: vamos estudar o comportamento do consumidor digital, do processo de decisão clássico à jornada do cliente e ao papel das avaliações online.

Referências

AMERICAN MARKETING ASSOCIATION. Definitions of marketing. Chicago: AMA, 2017. Disponível em: https://www.ama.org/the-definition-of-marketing-what-is-marketing/. Acesso em: 8 out. 2026.

BORDEN, Neil H. The concept of the marketing mix. Journal of Advertising Research, v. 4, n. 2, p. 2-7, 1964.

CONSTANTINIDES, Efthymios. The marketing mix revisited: towards the 21st century marketing. Journal of Marketing Management, v. 22, n. 3-4, p. 407-438, 2006.

FULLERTON, Ronald A. How modern is modern marketing? Marketing’s evolution and the myth of the “production era”. Journal of Marketing, v. 52, n. 1, p. 108-125, 1988.

KEITH, Robert J. The marketing revolution. Journal of Marketing, v. 24, n. 3, p. 35-38, 1960.

KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 3.0: as forças que estão definindo o novo marketing centrado no ser humano. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 4.0: do tradicional ao digital. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.

KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 5.0: tecnologia para a humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2021.

KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração de marketing. 14. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2012.

KOTLER, Philip; LEVY, Sidney J. Broadening the concept of marketing. Journal of Marketing, v. 33, n. 1, p. 10-15, 1969.

LEVITT, Theodore. Marketing myopia. Harvard Business Review, v. 38, n. 4, p. 45-56, 1960.

McCARTHY, E. Jerome. Basic marketing: a managerial approach. Homewood: Richard D. Irwin, 1960.

VARGO, Stephen L.; LUSCH, Robert F. Evolving to a new dominant logic for marketing. Journal of Marketing, v. 68, n. 1, p. 1-17, 2004.

WILKIE, William L.; MOORE, Elizabeth S. What does the definition of marketing tell us about ourselves? Journal of Public Policy & Marketing, v. 26, n. 2, p. 269-276, 2007.

Como citar este texto

RÚBIO, Mélker. Evolução do marketing: do mix de Borden e dos 4Ps ao Marketing 5.0. MR Academy, Novo Progresso, 13 out. 2026. Disponível em: https://melkerrubio.com/evolucao-do-conceito-de-marketing/. Acesso em: [data do seu acesso].

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