Sabe aquela planilha que você prometeu entregar para o cliente na terça-feira? Ela estava lá, impecável, na caixa de entrada dele às 8 da manhã. Aquele favor que seu amigo pediu para a mudança no fim de semana? Você foi o primeiro a chegar, carregando caixas debaixo de sol e chuva.
Nós somos máquinas de cumprir promessas… desde que essas promessas não sejam para nós mesmos.
Eu vi um vídeo hoje, rolando o feed numa dessas redes vizinhas, que me acertou como um soco no estômago. A tese era simples, quase brutal: a razão pela qual falhamos nas nossas metas de Ano Novo não é falta de capacidade. É falta de “outridade”. Se as suas metas de vida fossem um projeto de um chefe chato ou de um cliente pagante, você já teria entregue.
Mas como é para você… bom, aí a gente negocia. A gente adia. A gente se trai.
Por que a nossa palavra vale ouro para o mundo e vale tão pouco diante do espelho?
Eu não quero falar sobre métricas de conversão ou funis de vendas hoje. Hoje a gente precisa conversar sobre a “conversão” mais difícil de todas: a da intenção em ação, quando não tem ninguém olhando.
Aqui em Novo Progresso, o calor às vezes cria uma miragem no asfalto da BR-163. Você jura que vê água lá na frente, mas conforme avança, é só mais estrada quente e poeira. A nossa relação com as metas pessoais é muito parecida com essa miragem.
A gente jura que “segunda-feira começa”. A gente visualiza o corpo saudável, o livro escrito, o inglês fluente. Mas a gente nunca chega lá. E o mais curioso é que, profissionalmente, nós somos excelentes.
Se eu disser para um aluno meu que ele precisa ler três capítulos até a próxima aula, ele lê. Se eu tiver que preparar uma aula complexa sobre neuromarketing para amanhã, eu não durmo, mas a aula sai. Existe um rigor, uma ética de trabalho que a gente veste como um uniforme quando sai de casa. Mas quando a porta fecha e somos só nós e os nossos sonhos… a disciplina desmorona.
Steven Pressfield, em sua obra seminal, chama isso de “Resistência”. Mas eu acho que vai além. Eu acho que é um problema de hierarquia.
Pensa comigo nessa imagem.
Imagine um arquiteto renomado. O melhor da sua geração. Ele é contratado para projetar catedrais que tocam o céu, bibliotecas onde o silêncio parece sagrado, e casas que são verdadeiros refúgios de paz para seus clientes. Ele desenha cada detalhe, fiscaliza cada tijolo, briga com fornecedores para garantir que o mármore seja perfeito. Ele não aceita nada menos que a excelência absoluta para os outros.
Mas, quando o sol se põe, esse arquiteto volta para casa. E a casa dele… não tem telhado. As paredes estão no reboco. O chão é de terra batida. Quando perguntam para ele: “Mas você é o mestre das construções, por que vive assim?”, ele responde, cansado: “Ah, hoje eu tive que resolver um problema na obra do Duque. Amanhã eu cuido da minha parede.”
Esse arquiteto somos nós.
Nós construímos impérios para os outros e vivemos nas ruínas da nossa própria procrastinação.
No marketing, a gente aprende sobre o conceito de “Brand Equity” — o valor de uma marca. Nós trabalhamos duro para aumentar o valor da marca da empresa onde trabalhamos, ou do produto que vendemos. Mas o nosso “Personal Equity”, o valor que atribuímos à nossa própria palavra, está em baixa.
Existe uma explicação psicológica para isso, claro. Quando nos comprometemos com outra pessoa, existe um “custo social” em falhar. A vergonha, a demissão, o julgamento. O ser humano é um animal social, programado para evitar o ostracismo. Mas quando você falha consigo mesmo… quem fica sabendo?
A negociação acontece no silêncio da sua mente. “Ah, hoje eu tô cansado, não vou na academia. Amanhã eu vou em dobro”. Você aceita essa desculpa porque o único prejudicado é você. E, aparentemente, nós não nos respeitamos o suficiente para temer a nossa própria decepção.
Isso me lembra de algo que li no livro Hábitos Atômicos, do James Clear. Ele diz que cada ação que você toma é um voto para o tipo de pessoa que você deseja se tornar.
Quando você cumpre o prazo do chefe, você está votando na identidade de “profissional competente”. Quando você fura a dieta na terça-feira à noite, você está votando na identidade de “alguém que não tem controle”.
O vídeo que eu vi mais cedo tocava exatamente nesse ponto. Se as suas metas de Ano Novo fossem terceirizadas… se o seu chefe dissesse: “Melker, se você não perder 5kg até março e não terminar de escrever seu livro, você está demitido”, o que aconteceria?
Eu tenho certeza absoluta que, em março, eu estaria mais magro e com o livro na mão.
Isso revela uma verdade desconfortável: nós funcionamos melhor sob o chicote do medo e da obrigação externa do que sob a carícia do amor próprio. Nós somos ótimos funcionários, mas péssimos CEOs da própria vida.
Nós tratamos nossos sonhos como “projetos paralelos”, coisas que fazemos “se der tempo”. Mas o tempo, meu amigo, o tempo é um recurso que não aceita desaforo. Aqui no Pará, a gente vê a floresta. Uma árvore não pede licença para crescer. Ela não espera o “momento ideal” para buscar o sol. Se ela hesitar, a mata engole.
Nós estamos sendo engolidos pela urgência dos outros. O e-mail que chega tem prioridade sobre o livro que você quer escrever. A notificação do WhatsApp grita mais alto que a sua vontade de meditar. Estamos vivendo no modo reativo, atendendo demandas externas, e deixando a nossa essência na fila de espera.
Então, como a gente quebra esse ciclo? Como a gente para de ser o arquiteto que vive na ruína?
A solução não é apenas “ter mais força de vontade”. A força de vontade é um músculo que cansa. A solução é uma mudança de estrutura. É um “rebranding” interno.
Você precisa se tratar como seu cliente mais importante. E eu não estou falando isso como frase de autoajuda barata. Estou falando de técnica.
Saca só: no marketing digital, quando temos um cliente grande, nós temos contrato, cronograma, entregáveis e penalidades. Por que você não tem um contrato consigo mesmo?
Se você quer escrever um livro, ou começar um canal, ou emagrecer, pare de tratar isso como um “hobby”. Profissionalize a sua ambição pessoal.
- Agende, não espere: O horário do seu treino deve ser tão inegociável quanto uma reunião de diretoria. Se alguém pedir para marcar algo no horário, a resposta não é “posso desmarcar meu treino”. A resposta é: “Tenho um compromisso inadiável nesse horário”.
- Crie custo social: Se você não consegue cumprir promessas para si mesmo, use a sua falha a seu favor. Comprometa-se publicamente. Ou contrate alguém para quem você deva satisfação. Um treinador, um mentor, um amigo chato. Externalize a responsabilidade até que você internalize a disciplina.
- A Regra dos Dois Minutos: Como sugere David Allen em A Arte de Fazer Acontecer, se algo leva menos de dois minutos, faça agora. Pare de negociar com a preguiça.
O segredo não é amar o processo o tempo todo. É respeitar o processo mais do que você respeita o seu conforto momentâneo.
No fim das contas, a vida não vai cobrar de você as metas que o seu chefe bateu. O túmulo não vai ter gravado na lápide “Aqui jaz o funcionário do mês”. O que fica é o que você construiu para si e para os seus. A sua saúde, o seu legado, a sua arte, a sua paz.
É irônico, não é? A gente passa a vida correndo para não decepcionar os outros, e corre o risco de chegar ao final da jornada tendo decepcionado a única pessoa que esteve conosco desde o primeiro respiro.
Então, a minha provocação para você hoje, antes de você fechar esse texto e voltar para as demandas do mundo, é a seguinte:
Se a sua vida fosse uma empresa, e você fosse o único acionista… você estaria satisfeito com o desempenho do CEO? Ou você o demitiria por justa causa?
Pensa nisso. E me conta aqui nos comentários: qual é a meta que você realizaria amanhã se fosse obrigado pelo seu chefe, mas que está engavetada há anos porque depende só de você?
Vamos conversar. Um abraço, e até a próxima.
Referências Bibliográficas
- PRESSFIELD, Steven. The War of Art: Break Through the Blocks and Win Your Inner Creative Battles. Black Irish Entertainment LLC, 2002.
- CLEAR, James. Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones. Avery, 2018.
- ALLEN, David. Getting Things Done: The Art of Stress-Free Productivity. Penguin Books, 2001.