O COLAPSO DO MARKETING DA MASCULIDADE FRÁGIL

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

A notícia chega na timeline e a reação fisiológica é… o silêncio. Nenhuma surpresa. Nenhum espanto. O influenciador que construiu sua carreira digital ensinando homens a desprezarem mulheres, o sujeito que media o valor humano pelo teor alcoólico de um drink, está nas manchetes policiais. A acusação? Agressão.

Você lê e pensa: “Era óbvio”. Mas por que era óbvio?

Pensa comigo. Se a promessa de venda dele era a superioridade, o controle absoluto e a indiferença estoica, por que o desfecho é, invariavelmente, a perda total de controle?

A pergunta que a gente precisa fazer hoje não é sobre o crime em si — a justiça cuida disso. A pergunta que me assombra, e que deveria assombrar qualquer um que estuda o comportamento humano, é: como alguém que baseia toda a sua existência no ódio ao feminino consegue, em primeiro lugar, ter uma namorada para agredir?

Hoje, a gente não vai falar só de um caso de polícia. A gente vai falar sobre o marketing da insegurança e o colapso inevitável de quem vende o que não tem.

A Engenharia da Carência

Aqui na minha bolha, estudando as engrenagens do marketing digital, a gente aprende uma regra básica: identifique uma dor e venda o analgésico. É cínico, mas é o mercado. Só que existe uma categoria de “produto” digital que não vende a cura. Vende a doença.

O movimento Redpill, e figuras como esse “Calvo do Campari” — vamos chamar pelo arquétipo para não dar palco ao CPF —, operam num funil de vendas muito específico. O público-alvo são homens perdidos. Homens que sentem que perderam o bonde da história, que não sabem mais qual é o seu papel num mundo onde as mulheres, felizmente, não aceitam mais serem subjugadas.

O influenciador chega e diz: “Você não é fracassado. Você é uma vítima. As mulheres são o inimigo. E eu tenho o segredo para você dominá-las”.

Seth Godin, em sua obra seminal Isso é Marketing, nos ensina que “pessoas como nós fazem coisas como estas”. O marketing cria tribos. E a tribo que esse sujeito criou é baseada na validação do ressentimento. Ele não ensina confiança. Ele ensina arrogância. E, meus amigos, a diferença entre confiança e arrogância é que a confiança é silenciosa; a arrogância precisa de plateia. A confiança protege; a arrogância agride.

O Paradoxo do Consumo

Mas aí entra o ponto que me pegou pensando aqui. O choque não é a prisão. O choque é o relacionamento. Como é que esse cara tinha uma namorada?

Isso nos leva a uma reflexão mais profunda sobre a carência humana. Existe um mercado para o abuso, infelizmente. Muitas vezes, a performance de “homem alfa”, de “protetor”, de “líder”, atrai num primeiro momento. É uma fantasia de segurança. O marketing dele funcionou tão bem que ele convenceu até quem deveria ser repelida por ele. Ele vendeu a imagem de um “bad boy” reformado, ou de um homem de “alto valor” (como eles adoram dizer). Mas a entrega do produto… a entrega foi o caos.

É como comprar uma embalagem de luxo e, ao abrir, encontrar apenas ar viciado.

A Fragilidade Exposta

Quando a gente olha para a agressão, para o ato físico da violência, o que estamos vendo é o esgotamento do vocabulário.

O filósofo Byung-Chul Han fala muito sobre a “Sociedade do Cansaço” e a violência neuronal, mas aqui a violência é bruta, atávica. O homem que agride uma mulher não está demonstrando força. Ele está confessando, aos gritos, a sua impotência.

Ele precisou agredir porque a retórica falhou. Ele precisou agredir porque o “frame” — aquele conceito que eles tanto amam — quebrou. Ele precisou agredir porque, diante da realidade complexa de um outro ser humano, o script de “macho alfa” que ele decorou para o YouTube não se sustentou. É a falência do produto em tempo real.

Então, voltamos àquela sensação de “não estou chocado”.

Não estamos chocados porque sabemos que toda construção baseada no ódio tem prazo de validade. É insustentável. Você não consegue manter uma performance de superioridade 24 horas por dia. Uma hora, a máscara cai, o copo de Campari vira, e o que sobra é apenas um menino assustado e raivoso num corpo de adulto.

O que esse influenciador vendia para seus seguidores era uma armadura de papelão. Parecia sólida no vídeo, com a iluminação certa e a edição rápida. Mas na chuva da vida real… ela derrete.

Eles ganham dinheiro ensinando outros homens a “escrotizar” mulheres para se sentirem superiores, porque a única forma de alguém muito pequeno se sentir grande é tentando diminuir quem está ao lado. A prisão, o escândalo, o fim da carreira… não são acidentes de percurso. São o destino manifesto desse modelo de negócio.

Eu fico pensando no legado que isso deixa. Nos milhares de meninos que assistiram a esses vídeos e acharam que ser homem é isso. Que acharam que respeito se impõe com medo, e não com admiração.

A verdadeira tragédia não é apenas o que aconteceu com a namorada — e a ela, toda a nossa solidariedade —, mas a quantidade de mentes que foram envenenadas achando que esse teatro patético era um manual de vida. Ser homem, ser adulto, é ter a coragem de ser vulnerável sem se quebrar. É entender que a força real não precisa machucar ninguém para existir.

Mas me diz você… quando você vê um caso desses, você sente raiva, ou você sente aquela pena distante de quem vê alguém preso na própria armadilha? E, mais importante: o que é “força” pra você?

Escreve aqui embaixo. Vamos conversar sobre isso.

Um abraço.


Referências Bibliográficas:

  1. GODIN, Seth. Isso é Marketing: Para ser visto é preciso aprender a enxergar. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.
  2. HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
  3. HAN, Byung-Chul. Agonia do Eros. Petrópolis: Vozes, 2017.
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