A PREFEITA CARINE SCHWINGEL DEU UM TAPA NA CARA DA POLARIZAÇÃO

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

Pensa comigo. Em que momento da nossa história recente a normalidade se tornou revolucionária?

Você provavelmente viu o vídeo. O cenário é o Rio Grande do Sul, terra que ainda carrega as cicatrizes da lama e das enchentes. O palco é o município de Estrela RS. E a frase… a frase é um paradoxo que não deveria existir. A prefeita Carine Schwingel , diante de uma entrega federal, diz: “Eu não sou do partido do presidente, mas isso nunca me foi perguntado. Nunca foi uma condição”.

Parece simples, né? Mas se você parar para ouvir o silêncio entre essas palavras, vai notar um estrondo. Porque essa frase não fala sobre logística, não fala sobre casas entregues e nem sobre verbas. Ela fala sobre a morte de um jeito muito específico de fazer política — e o renascimento, talvez tímido, do conceito de República.

Mas me diz… por que ouvir que um governo ajudou uma cidade sem pedir fidelidade partidária em troca soa tão estranho aos nossos ouvidos hoje? A resposta pode estar na forma como nos acostumamos a ser tratados como torcida, e não como cidadãos.

Aqui no Pará, a gente sente na pele quando a política vira uma queda de braço. A distância de Brasília muitas vezes faz com que a gestão pública pareça algo abstrato. Mas o que aconteceu no Sul reverbera aqui, e reverbera em qualquer lugar onde a gestão precisa acontecer.

Vamos olhar para isso com a frieza de quem analisa uma estratégia de posicionamento de marca, mas com a sensibilidade de quem entende de gente.

Durante anos, e não estou falando apenas do último ciclo eleitoral, mas de uma intensificação recente, a política brasileira foi sequestrada pelo que, no marketing, chamamos de “Tribalismo Excludente“. Seth Godin, no livro Tribos, fala sobre como grupos se formam em torno de ideias. Mas na política recente, a ideia central não era “o que vamos construir”, mas sim “quem vamos destruir”.

O governo anterior operava sob a lógica do conflito permanente. Era uma estratégia de comunicação baseada na teoria do “Amigo-Inimigo” do jurista Carl Schmitt. Se você não está comigo, você é o inimigo. E ao inimigo, nem a lei, nem o pão. Houve momentos documentados onde a cor da bandeira do governador definia a velocidade da caneta em Brasília. Isso não é gestão; isso é chantagem institucionalizada.

Agora, volta para a fala da prefeita de Estrela. Quando ela diz “nunca me foi perguntado”, ela está descrevendo o retorno do Princípio da Impessoalidade. Isso está no artigo 37 da Constituição, mas parecia ter sido apagado com corretivo nos últimos anos.

Do ponto de vista de Branding Político, o que o atual governo federal fez ali foi uma manobra de “Rebranding do Estado”. Ao invés de usar a tragédia como palanque para segregar (“ajudei os meus, castiguei os outros”), a entrega foi feita sob a ótica do Serviço Público.

Philip Kotler, em suas obras sobre marketing no setor público, argumenta que a confiança é a moeda mais valiosa de qualquer administração. Quando um governo condiciona ajuda à lealdade, ele desvaloriza essa moeda. Ele diz ao cidadão: “O seu imposto só volta para você se você gostar de mim”. Isso é a privatização da máquina pública para fins de ego.

A diferença que você, leitor e espectador, me perguntou se eu percebo, é brutal. No modelo anterior, a ajuda era um favor do rei. No modelo republicano, a ajuda é um dever do servidor.

A prefeita Carine Schwingel não precisou beijar a mão de ninguém. Ela não precisou vestir uma cor que não era a dela. E isso, ironicamente, gera muito mais capital político para o governo federal do que qualquer exigência de lealdade forçada. Porque mostra segurança. Mostra que o governo não tem medo da oposição, porque entende que a fome, o frio e a falta de teto não têm partido.

Existe um dado interessante sobre gestão de crise. Estudos mostram que em momentos de catástrofe, a população tende a “se unir em torno da bandeira”. Mas se o líder usa a catástrofe para dividir, esse efeito se quebra e vira ressentimento. O que vimos no Rio Grande do Sul, com essa fala, foi a cola social sendo aplicada onde antes havia fratura.

E aqui a gente chega no ponto nevrálgico dessa conversa. Por que essa fala viralizou? Por que estamos aqui, eu escrevendo e você ouvindo, sobre uma declaração protocolar de uma prefeita do interior?

Porque nós estamos famintos por civilidade. A gente se acostumou tanto com o grito, com a ofensa, com a “lacrada” nas redes sociais, que a educação política soa como uma obra de arte rara.

A diferença entre o governo anterior e este, neste recorte específico, é a diferença entre tratar o estado como uma propriedade privada e tratar o estado como uma concessão pública. O governo anterior muitas vezes parecia agir como um síndico que corta a água do apartamento 302 porque não gosta da cara do morador. O relato da prefeita mostra um síndico que conserta o telhado porque é obrigação do condomínio, independentemente de quem mora na cobertura.

Isso não significa que o governo atual seja perfeito, longe disso. A crítica jornalística deve ser constante. Mas negar a mudança de tom, negar a mudança de trato com o ente federativo, é cegueira. É negar que a atmosfera na sala mudou. A gente parou de prender a respiração esperando a próxima briga institucional.

No fim das contas, marketing não é só sobre vender produtos. É sobre como as histórias que contamos moldam a realidade em que vivemos. Se a história que o governo conta é “nós contra eles”, nós vivemos numa trincheira. Se a história é “o estado serve ao cidadão”, nós vivemos numa República.

A fala daquela prefeita em Estrela foi um suspiro de alívio. Foi a prova de que, talvez, a gente ainda saiba conviver com quem pensa diferente. De que a ajuda pode chegar sem o carimbo da humilhação.

Mas eu quero jogar essa bola pra você agora. Saca só… Quando você olha para o seu cotidiano, para as suas relações, ou até para a gestão da sua cidade aí onde você mora… você sente que a gente está reaprendendo a discordar sem se destruir? Ou você acha que essa “trégua” é só uma exceção numa regra de guerra?

Me conta aqui nos comentários. Eu realmente quero saber como isso chega até você.

Um grande abraço, e até a próxima.

Referências Bibliográficas

  1. GODIN, Seth. Tribos: Nós precisamos que vocês nos liderem. Alta Books, 2009.
  2. KOTLER, Philip; LEE, Nancy. Marketing no Setor Público: Um Guia para um Desempenho Mais Eficaz. Bookman, 2008.
  3. SCHMITT, Carl. O Conceito do Político. Vozes, 1992.
  4. LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Zahar, 2018.
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