A ENGENHARIA DA EXAUSTÃO

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

Sabe aquela sensação de acordar, olhar para o teto e sentir que a bateria continuou no vermelho? Não importa se você dormiu oito, nove, dez horas. O corpo levantou, mas a alma… a alma pediu mais cinco minutos. E não é só sono. É uma gravidade diferente.

Você já parou para pensar por que, na era mais tecnológica, automatizada e facilitada da história humana, nós nunca estivemos tão exaustos?

E se eu te dissesse que esse cansaço não é um defeito biológico seu, mas um projeto? Um projeto silencioso, onde você foi treinado para ser, ao mesmo tempo, o carrasco e a vítima.

Pensa comigo.

Aqui onde eu moro, quando o calor aperta e a poeira da estrada sobe, a gente sente o peso do ar. É um cansaço físico, palpável, resultado do trabalho, do clima, da vida que pulsa e exige esforço muscular. Esse cansaço o corpo entende. Um banho frio, uma rede, um sono pesado e no dia seguinte você está novo.

Mas o que a gente está vivendo hoje… é outra categoria de exaustão.

Eu vejo isso nos meus alunos de marketing, vejo isso nos empreendedores que me procuram. Eles chegam com olheiras que não são de “trabalhar na roça”, mas de “rolar o feed”. É o cansaço da performance.

No mundo do marketing digital, a gente aprende sobre métricas. CTR, ROI, taxa de conversão. A gente aprende que tudo que não cresce, morre. O problema é que a gente pegou essa lógica de mercado e aplicou na nossa própria biologia.

A gente se transformou no produto. E produto não descansa. Produto fica na prateleira, disponível, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Tem um filósofo sul-coreano, o Byung-Chul Han, que descreve isso com uma precisão cirúrgica. Ele diz que nós saímos da “Sociedade Disciplinar” — aquela onde alguém mandava e você obedecia, onde existia o “não pode” — e entramos na “Sociedade do Desempenho”.

A palavra de ordem agora não é “dever”. É “poder”. “Yes, we can”. Você pode tudo. Você pode ser milionário antes dos 30. Você pode ter o corpo perfeito. Você pode ler 50 livros por ano. Você pode ter três trabalhos parelelos e ainda ser um pai presente.

Soa motivador, né?

Mas olha a armadilha. Quando o problema é o “dever”, você tem um inimigo externo. O chefe chato, o governo opressor, a lei rígida. Você pode se rebelar contra eles.

Agora, quando o imperativo é “poder”, quando a motivação vem de dentro… quem é o inimigo se você fracassa? Quem é o culpado se você não está produzindo o tempo todo?

É você.

A gente internalizou o capataz. Você não precisa mais de um chefe gritando no seu ouvido, porque você já acorda se chicoteando mentalmente porque acordou às 7h e não às 5h da manhã para fazer o “milagre da manhã”.

Isso gera o que Han chama de “violência neuronal”. É um infarto da alma. Não é que você fez coisas demais. É que você nunca se permitiu não ser.

Isso me lembra uma história antiga, talvez você já tenha ouvido, sobre o faroleiro de uma ilha remota.

A função dele era simples: manter a luz do farol acesa para guiar os navios à noite. Ele recebia uma quantidade exata de óleo por mês para garantir que a chama nunca apagasse durante a escuridão.

Mas o faroleiro era um homem muito bom. Muito solícito.

Um dia, uma vizinha bateu à porta pedindo um pouco de óleo para aquecer a casa. Ele deu.

No outro dia, um viajante pediu óleo para lubrificar a roda da carroça. Ele cedeu.

Depois, a igreja pediu óleo para as lamparinas do altar. Ele não conseguiu dizer não.

Ele se sentiu útil. Ele se sentiu produtivo. Ele estava “agregando valor”, como a gente gosta de dizer no corporativo. Ele estava ajudando a comunidade.

Mas no fim do mês, quando a tempestade veio e a noite ficou mais escura, o óleo acabou. O farol apagou. E os navios bateram nas pedras.

Quando questionaram o faroleiro, ele disse: “Mas eu estava apenas tentando ajudar a todos!”.

A gente é esse faroleiro. A gente distribui nossa energia — nosso óleo — em notificações de WhatsApp, em polêmicas no Twitter, em vídeos curtos que a gente nem lembra 5 segundos depois, em preocupações com a opinião de gente que nem conhece a gente.

A gente queima o óleo para parecer produtivo, para parecer “engajado”. E quando chega a hora de iluminar o que realmente importa — nossa família, nossa saúde mental, nosso propósito real — a chama está apagada.

No marketing, existe um conceito chamado “Custo de Oportunidade”. Basicamente, para você escolher uma coisa, você tem que abrir mão de outra. Não dá para ter tudo.

Só que a internet vendeu a ilusão de que o custo de oportunidade acabou. Que dá para consumir tudo, estar em tudo. Essa onipresença digital nos fragmentou.

Saca só essa nuance: o cansaço de hoje não vem da atividade excessiva. Vem da dispersão excessiva.

A gente está cansado porque a gente perdeu a capacidade de contemplar. De fazer uma coisa só. De ler um texto longo sem abrir outra aba. De assistir a um filme sem pegar o celular.

O tédio, que antigamente era o berço da criatividade, virou um pecado mortal. Se você está na fila do banco e tem 30 segundos livres, você saca o celular. Você não se permite o silêncio. E é no silêncio que a mente se regenera.

A gente está vivendo um “Burnout” coletivo, não porque trabalhamos muito, mas porque perdemos os rituais de encerramento.

Antigamente, o sol se punha, o trabalho acabava. Hoje, o escritório está no seu bolso. A notificação do e-mail chega no jantar de domingo. Não existe mais “fora”. Tudo é “dentro”. E se tudo é tempo de trabalho e performance, nada é tempo de descanso.

A verdade, nua e crua, é que descansar, hoje, é um ato de rebeldia.

Dizer “não” para a urgência do mundo é a única forma de preservar a sua importância no mundo.

Se você quer ser um profissional melhor, um pai melhor, uma pessoa melhor, você não precisa de mais “hacks” de produtividade. Você não precisa de mais um aplicativo de gestão de tempo.

Você precisa de coragem.

Coragem para ser “improdutivo” aos olhos de um sistema que lucra com a sua ansiedade. Coragem para decepcionar as expectativas alheias para não decepcionar a sua própria saúde.

O cansaço que o sono não cura só se resolve quando a gente para de tentar ser uma máquina e volta a aceitar ser humano. E humano tem ciclo. Humano falha. Humano precisa olhar para o nada para conseguir enxergar alguma coisa.

Recuperar o seu tempo, a sua atenção, não é um luxo. É uma questão de soberania.

Eu quero que você faça um exercício agora. Não é lição de casa, é um convite.

Hoje, quando você for se deitar, ou talvez agora mesmo. Solte o celular, Desligue a TV. Tente ficar cinco minutos apenas existindo. Sem input. Sem output. Só existindo.

Pode ser assustador no começo. O silêncio grita. Mas é nesse grito que a gente se encontra.

Mas me diz aqui nos comentários, e eu quero mesmo saber: qual foi a última coisa que você fez que não tinha “utilidade” nenhuma, que não era pra postar, nem pra aprender, nem pra lucrar, mas só pelo prazer de fazer? Você ainda lembra como é isso?


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E LEITURA RECOMENDADA

  1. HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Editora Vozes, 2015. (Conceito central de “Sociedade do Desempenho” e “Violência Neuronal”).
  2. NEWPORT, Cal. Deep Work: Rules for Focused Success in a Distracted World. Grand Central Publishing, 2016. (Conceitos sobre dispersão e foco).
  3. KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 4.0: Do tradicional ao digital. Sextante, 2017. (Para o background sobre a onipresença digital e a economia da atenção).
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