A gente assiste, paralisado, as cenas de guerra urbana que tomaram conta do Rio de Janeiro nesta semana.
E, quase que simultaneamente, a gente ouve a notícia de que São Paulo quer propor trinta anos de reclusão para quem for pego pertencendo a uma facção.
Parecem duas coisas distintas. Uma é a reação ao caos. A outra é uma proposta de lei.
Mas elas são, na verdade, a mesma história.
A história da segurança pública no Brasil, seja no Rio de Janeiro com o Comando Vermelho, ou em São Paulo com o Primeiro Comando… é uma tragédia contada em círculos.
E agora, chegamos a um novo capítulo que soa, tragicamente, como o primeiro.
O mesmo Estado que, por ação e omissão, forçou o nascimento das grandes facções… que usou a violência extrema dentro dos muros, no Carandiru em São Paulo, ou no inferno da Ilha Grande, no Rio…
Esse mesmo Estado, décadas depois, incapaz de desarticular as próprias criaturas, vem a público e propõe o que parece ser a solução final: trinta anos de pena.
Mas pensa comigo.
Se a estratégia de encarceramento em massa… se a política de transferências… se o sistema prisional como o conhecemos… não só falhou em desarticular essas organizações, como, na verdade, serviu de centro de logística e recrutamento para elas…
O que faz alguém acreditar que mais prisão, dentro desse mesmo sistema falido, vai magicamente resolver o problema?
E se essa proposta… essa canetada de 30 anos… não for uma demonstração de força, mas sim o exato oposto?
E se esse for… o atestado de falência?
Para entender o tamanho do problema, a gente precisa olhar para os pecados originais.
O primeiro, no Rio de Janeiro, lá nos anos 70. Ao decidir misturar presos comuns com presos políticos no presídio da Ilha Grande. Ele deu aos criminosos comuns uma assessoria gratuita em… organização, hierarquia, ideologia. O Comando Vermelho não nasceu do nada. Ele nasceu dessa mistura.
O segundo pecado, em São Paulo, nos anos 90. O massacre do Carandiru. Foi o evento que provou, para aqueles homens, que o Estado era o inimigo comum e que, desunidos, eles seriam sempre vítimas. A resposta a essa violência estatal foi a organização. Nasceu o PCC.
O Estado, com sua própria brutalidade, deu ao crime uma razão para existir de forma organizada.
E o que o Estado fez quando percebeu que essas organizações estavam crescendo?
Ele cometeu o segundo erro estratégico. Um erro que, hoje, afeta o Brasil inteiro, do Rio Grande do Sul a Novo Progresso, aqui no Pará.
A estratégia foi: “Vamos quebrar o comando. Vamos transferir os líderes. Vamos espalhá-los.”
O resultado?
O Estado brasileiro inventou, sem querer, a metástase do crime organizado. Cada líder transferido… virava um embaixador da facção. Ele levava o know-how. Ele cooptava a massa carcerária local. Esse foi o modelo de expansão do PCC.
Mas, enquanto São Paulo espalhava seu modelo de dentro para fora, quase como uma expansão corporativa… o Rio de Janeiro aperfeiçoava outra tática.
O Comando Vermelho entendeu que não precisava enviar um líder; ele só precisava vender a marca.
Eles criaram o verdadeiro modelo de franquia.
O CV permite que facções locais, aqui no Norte, no Nordeste, usem seu nome, suas rotas, suas armas… em troca de lealdade e uma fatia dos lucros. Eles não colonizam; eles fazem parcerias. Eles licenciam o brand.
O resultado é o mesmo: uma guerra nacional.
Aqui onde eu vivo, no sul do Pará, a gente entende bem o que é o vácuo de poder.
A gente não vê essa guerra só pela TV. A gente vê ela na prática. A gente vê a expansão do PCC, que chega para tomar… e a gente vê a reação do CV, que se associa aos grupos locais para defender o território, usando esse modelo de franquia.
A disputa pelos nossos rios, que são as nossas estradas… é a disputa dessas duas marcas, que operam com dois modelos de negócio distintos.
A facção é, e me dói dizer isso como professor de marketing, um produto assustadoramente eficaz.
Ela oferece o que o Estado nega.
Ela oferece identidade. Ela oferece um senso de pertencimento. Ela oferece proteção. Ela oferece um senso de justiça, mesmo que seja um tribunal torto e brutal. E, claro, ela oferece lucro.
A facção se tornou uma marca. E o modelo de franquia do Comando Vermelho é a prova mais clara disso. É uma brand poderosa, construída sobre as ruínas da falha estatal.
E agora, chegamos em 2025. O Estado, assistindo a guerra no Rio e o domínio em São Paulo… vendo que essas “marcas” dominam territórios, presídios e ditam regras fora deles… decide que a solução é aumentar a pena.
Trinta anos.
Saca só a lógica.
O problema não é o tempo que a pessoa passa lá dentro. O problema é o que acontece lá dentro.
Nossas prisões não são centros de ressocialização. Elas são os escritórios do crime. São as universidades do tráfico.
Pegar um jovem… um “soldado” de 19, 20 anos… e condená-lo a 30 anos… não é “tirar ele de circulação”.
É entregá-lo de bandeja para a organização por três décadas.
Com 30 anos de pena, o que esse jovem vai fazer? Ele vai baixar a cabeça e tentar “virar pastor”? Ou ele vai mergulhar de cabeça na única estrutura que pode lhe oferecer alguma proteção, algum status, alguma sobrevivência lá dentro?
O Estado está, efetivamente, dizendo para esse jovem: “Você não tem mais volta. Sua única família, agora, é a facção.”
Ele não está recuperando o cidadão. Ele está graduando o soldado.
Isso é populismo penal.
É uma solução de manchete. Soa bem no jornal da noite, especialmente depois de uma semana de caos no Rio. Dá a impressão de que algo está sendo feito. “Estamos sendo duros com o crime”.
Mas, na prática, é uma política que não mexe na causa do problema.
A causa é a ausência de alternativa. A causa é um sistema prisional que é uma bomba-relógio. A causa é a incapacidade do Estado de fazer inteligência… de sufocar o dinheiro… de cortar as linhas de comando.
Essa lei de 30 anos vai impedir o PCC de recrutar dentro do presídio? Não.
Essa lei vai impedir o Comando Vermelho de vender sua franquia para um grupo local no Acre, ou aqui no Pará?
Não.
É mais fácil prender mil “soldados” e dar uma pena longa… do que prender um banqueiro que lava o dinheiro da facção.
É mais fácil endurecer a lei… do que reformar o sistema.
O Estado está investindo, de novo, no sintoma. E ignorando, de novo, a doença.
E é aqui que o círculo se fecha. E a falência se declara.
O Estado que criou o monstro na Ilha Grande…
O Estado que criou o monstro no Carandiru…
O Estado que multiplicou os monstros, ao espalhar seus líderes como sementes e ao permitir que suas “marcas” fossem franquiadas…
Agora, assistindo sua própria e absoluta incapacidade de vencer a guerra… o que ele propõe?
Mais violência. Mais tempo. Mais daquilo que, comprovadamente, fortaleceu o inimigo.
A proposta de 30 anos não é uma demonstração de força. É o oposto.
É o Estado gritando para quem quiser ouvir: “Eu não sei como vencer. Eu não sei como desarticular. Eu perdi o controle da minha própria casa… dos meus próprios presídios… então, a única coisa que me resta… é trancar a porta, jogar a chave fora por três décadas… e torcer para que o problema morra lá dentro.”
Mas ele não morre. Ele só fica mais forte.
Essa é a realidade. E ela é dura.
Porque essa guerra não acontece só nas manchetes de São Paulo ou nas operações do Rio de Janeiro. Ela acontece aqui, na disputa pelas rotas do rio. Ela acontece no preço das coisas. Ela acontece no aplicativo de delivery que a gente usa, sem saber quem controla aquela área.
A falência da segurança pública num canto do país, reverbera em todos os outros.
Mas eu queria saber de você.
Quando você vê uma notícia como essa… sobre “endurecer a pena”… em meio a cenas de caos urbano… você honestamente sente mais segurança?
Ou você sente, como eu, um cansaço profundo?
Um cansaço de ver o mesmo roteiro sendo repetido, de novo, e de novo… enquanto a gente espera, ingenuamente, por um final diferente.
Você ainda acredita que mais prisão… dentro dessa prisão que temos hoje… resolve alguma coisa?
Me conta aqui nos comentários o que você pensa sobre isso.