O ESPELHO LARANJA E PRETO

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

O ano termina… e a discussão de sempre começa.

Outubro se despede, e com ele, as vitrines se enchem de laranja e preto. Crianças pedindo doces, fantasiadas de monstros. Adultos em festas, com maquiagens elaboradas. E, inevitavelmente… a patrulha.

A patrulha cultural, que decreta com fúria: “isso não é nosso”. “Isso é imperialismo”. “Isso é colonização americana”.

E no meio dessa briga… talvez você sinta, como eu sinto, um desconforto. Uma sensação de que o debate é… pequeno.

E se essa raiva toda do Halloween… não for sobre o Halloween?

E se essa festa, que a gente insiste em ver como uma invasão, for na verdade um espelho? Um espelho laranja e preto… que tá refletindo uma coisa sobre nós. Uma coisa que a gente não tem coragem de admitir.

Eu escrevo isso aqui do Pará.

Aqui, a cultura é outra. A cultura é… palpável. É a poeira da estrada de chão, é o ritmo do carimbó que vaza de um bar, é o gosto do açaí com peixe frito, que pra muito brasileiro ainda soa… exótico.

E talvez por estar aqui, longe dos eixos que tentam mimetizar o que vem de fora, eu veja essa “guerra do Halloween” com uma certa… tristeza.

Porque a briga não é sobre o Halloween. Pensa comigo.

Ninguém acha ruim usar terno e gravata no calor de 40 graus de Belém. Ninguém questiona o Papai Noel, um símbolo nórdico, com roupa de inverno, no nosso Natal tropical. Ninguém questiona o porquê da gente comer peru, uma ave domesticada nos Estados Unidos, na ceia.

A gente aceita o que vem de fora… o tempo todo.

O problema não é o que é de fora. O problema é quando o que vem de fora é… eficiente. Divertido. E desejável.

O que o Halloween faz é expor a nossa maior ferida. O nosso complexo de vira-lata.

A gente não tem inveja da cultura americana. A gente tem inveja… da competência americana.

Nós temos uma mitologia, um folclore, que faz a mitologia de terror americana parecer uma história de jardim de infância.

Sério. Pensa bem.

O que é o Jason, um cara de máscara, perto do Corpo-Seco? Um homem tão cruel em vida que a terra, por duas vezes, cuspiu o seu cadáver de volta, e que hoje vaga como um ser de pura maldade, com o corpo apodrecido, agarrando quem passa?

O que é um vampiro… perto da Matinta Perera? Uma entidade sombria, que assobia na calada da noite, e que se você ousar prometer o tabaco dela e não entregar, ela destrói sua vida?

O nosso problema… é que a gente não sabe o que fazer com isso.

A gente trata o nosso folclore como dever de casa. Coisa de museu. Coisa de mural de escola primária, com desenho mal feito de Saci.

A gente tem vergonha do que é nosso.

Aí, o jovem, a criança… ela busca o que é interessante. Ela busca uma boa história. E quem tá contando a história melhor?

Quem tá transformando suas lendas em filmes, em séries, em storytelling, em produtos? Quem tá criando rituais?

O Halloween é uma obra-prima de marketing.

Ele tem identidade visual. Ele tem um call to action (gostosuras ou travessuras). Ele tem engajamento (as fantasias). Ele é um pacote completo.

E nós? O que a gente oferece em troca?

O “Dia do Saci”. Um dia criado por lei, por decreto, na marra. Na tentativa de forçar um nacionalismo cultural que não existe na prática.

E o que a gente faz nesse dia? A gente se veste de Saci? A gente sai na rua? A gente cria um ritual?

Não. A gente… reclama do Halloween na internet.

Isso é o retrato de um fracasso. O nosso fracasso.

A gente falha em embalar o que temos de melhor. A gente falha em tornar o Saci, a Iara, o Curupira… desejáveis. A gente falha em criar as nossas próprias narrativas.

E aí, quando a cultura americana, que é mestre em empacotar e vender… ocupa o espaço que nós deixamos vazio… a gente culpa o invasor.

É mais fácil culpar o “imperialismo” do que admitir a nossa própria incompetência. A nossa própria preguiça. A nossa própria vergonha.

A “inveja cultural” não é inveja. É ressentimento. É o sentimento do incapaz, que vê o vizinho fazer uma festa melhor, com ingredientes muito mais pobres.

Nós temos a faca e o queijo na mão. Nós temos o ouro. Mas a gente continua insistindo em dizer que o ouro do vizinho, que nem é ouro, é mais bonito.

O Halloween, pra mim, aqui do meu canto no Pará… não é uma ameaça.

Ele é um consultor de marketing gratuito.

Ele chega todo ano, no dia 31 de outubro, e bate na nossa porta. E ele não pede doces. Ele faz uma pergunta.

Ele pergunta: “E aí? O que você fez com as suas histórias?”

“O que você fez com os seus monstros?”

“Por que você tá com tanta vergonha… de ser quem você é?”

O problema não é a abóbora. O problema é o espelho. O problema é a resposta que a gente não tem coragem de dar.

A gente não precisa proibir o Halloween. A gente precisa… desesperadamente… aprender com ele.

A gente precisa aprender a contar nossas histórias. A embalar nossos monstros. A ter orgulho da nossa mitologia. E transformá-la em algo tão irresistível… quanto uma festa de criança pedindo doce.

Talvez o caminho não seja construir muros… pra impedir a festa do vizinho de entrar.

Talvez o caminho seja… finalmente… começar a dar uma festa tão boa, tão nossa, tão poderosa… que o vizinho queira ser convidado.

Mas essa é só a minha impressão, aqui da minha janela em Novo Progresso.

Eu queria saber a sua.

Quando você vê a decoração laranja e preta tomando conta das lojas… o que você sente, de verdade? Você sente raiva? Indiferença? Ou você sente… essa pontada de vergonha, por a gente não saber fazer igual com o que é nosso?

Me conta o que você pensa disso.

Facebook
WhatsApp
Threads
Telegram
Reddit
LinkedIn
X

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *