O QUE CIRO GOMES REVELA SOBRE O BRASIL (E SOBRE VOCÊ)

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

“Quem é Ciro Gomes na fila do pão?”

Essa frase, repetida quase como um mantra nos últimos anos… ela diz menos sobre Ciro Gomes, e muito mais sobre a fila.

Sobre o pão.

E sobre quem define o tamanho da fome.

A pergunta, carregada de um desprezo quase protocolar, tenta reduzir uma das figuras mais complexas e… trágicas… da política brasileira a uma nota de rodapé. A um ninguém.

Mas e se a suposta irrelevância de Ciro Gomes não for um acidente? E se ela for, na verdade, o sintoma mais claro de um país que desistiu de si mesmo?

Para entender o que Ciro Gomes representa, a gente precisa parar de olhar para a pessoa… e começar a olhar para o que ela vende.

Ciro é, talvez, o último representante de uma ideia muito específica de Brasil.

Uma ideia que hoje soa quase arcaica. A ideia do “Projeto Nacional”.

Pensa comigo.

Nós vivemos hoje, e eu falo disso direto aqui no blog como professor de marketing, na era do afeto. Na era da conexão emocional imediata. A política não é mais um debate sobre o que fazer, mas sobre quem você odeia menos. Ou quem te faz sentir mais seguro.

O Brasil se dividiu em duas grandes igrejas.

De um lado, o Lulismo. Que não é um partido, é um sentimento. É a memória afetiva do cuidado, do pai, da redenção pela via do consumo, do “nunca antes na história desse país”. É uma política de afeto.

Do outro lado, o Bolsonarismo. Que também não é um partido, é uma reação. É o sentimento de ordem, de restauração de valores, da família como trincheira, do “Deus acima de todos”. É uma política de afeto.

E no meio dessas duas catedrais emocionais… está Ciro Gomes.

Ciro não vende afeto. Ciro vende um manual de instruções.

Ele é o homem do PND, o Projeto Nacional de Desenvolvimento. Um calhamaço. Um plano de reindustrialização, de reforma tributária complexa, de investimento em ciência, de mudança no câmbio.

Ciro Gomes é o vendedor de enciclopédias… na era do TikTok.

Ele senta no podcast, e enquanto o entrevistador espera o corte viral, Ciro começa a dissecar a taxa de juros real versus a nominal. Ele fala em reverter a primarização da nossa economia.

Ele fala… em lógica.

E o Brasil, hoje, não compra lógica. O Brasil compra emoção.

Quando o país estava pegando fogo em 2018, Ciro apresentava gráficos. Bolsonaro oferecia um revólver. Haddad oferecia a memória de Lula.

Numa conversa de bar… quem você acha que ganha essa disputa pela atenção?

Aqui, do Sul do Pará, de Novo Progresso, eu vejo essa dicotomia todo dia. A gente vive numa região que precisa de um projeto. Que precisa de logística, de indústria, de infraestrutura. Mas na hora de votar, o debate não é sobre a BR-163. O debate é sobre o kit gay ou o roubo da refinaria.

Ciro Gomes é o espelho do que nós abandonamos: o debate de projetos.

Mas… a culpa não é só nossa. A culpa não é só da “fila do pão”.

A tragédia de Ciro Gomes é que ele é, ao mesmo tempo, o antídoto e o veneno.

Ele é, inegavelmente, um dos intelectuais mais preparados da sua geração. Um homem que foi Ministro da Fazenda, Ministro da Integração Nacional, Governador de um estado que fez uma revolução na educação…

…e ele é, também, um coronel.

Impaciente. Arrogante. Um homem cujo pavio curto sabota a própria inteligência.

No marketing, a gente sabe que a confiança, o pathos, é a moeda que compra o direito de apresentar a lógica, o logos. Você primeiro conquista a pessoa, depois você apresenta o produto.

Ciro xinga o eleitor. Ele humilha o aliado. Ele quebra pontes no exato momento em que mais precisa delas.

A viagem para Paris em 2018… o silêncio ressentido… a incapacidade de entender que a política, goste ele ou não, é feita de símbolos e de alianças…

Ele preferiu ter razão… a ter o poder.

Ele preferiu ser o dono da verdade… a ser o construtor do consenso.

Ele se tornou refém do próprio ressentimento. E ao fazer isso, ele mesmo pegou a senha e foi para o fim da fila. Por escolha própria.

Então… quem é Ciro Gomes na fila do pão?

Ele é o fantasma.

Ele é o fantasma do Brasil que poderia ter sido. O país que, talvez, num outro universo, tivesse tido a maturidade de parar as brigas de torcida para discutir, a sério, o seu futuro.

Ele é o lembrete incômodo de que, talvez, a gente não tenha o que é preciso para ser esse país.

A irrelevância de Ciro… é o espelho da nossa própria superficialidade política. Nós o colocamos no fim da fila porque olhar para ele dói.

Dói admitir que talvez a gente prefira o pão mofado da polarização… ao banquete complexo, e difícil de preparar, de um projeto real.

Isso me faz pensar… além da política.

Na nossa vida.

Quantas vezes a gente sabe qual é a solução lógica? Aquele caminho racional… mudar de emprego, terminar o relacionamento tóxico, começar a estudar. O “plano” tá claro.

Mas a gente não faz.

Porque a gente prefere o drama. A gente prefere o conforto do conhecido, mesmo que esse conhecido seja ruim. A gente escolhe a emoção familiar… no lugar da lógica desafiadora.

A tragédia de Ciro é, no fundo, a tragédia humana.

Mas me diz você…

O que você sente sobre isso? O Brasil perdeu uma chance com Ciro, ou Ciro é só… barulho?

E mais importante: você acha que a gente, como país, e talvez como pessoa… a gente ainda tá pronto pra discutir um projeto… ou a gente só quer saber quem vai ganhar a próxima briga?

Deixa sua reflexão aqui embaixo.

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