O STF E A NORMALIZAÇÃO DO NEPOTISMO

Este texto expressa uma opinião estritamente pessoal,
baseada na minha percepção da realidade

Existe uma regra no Brasil.

Uma regra que não fomos nós que escrevemos, mas que aprendemos a respeitar como um pilar mínimo de decência na vida pública. A Súmula Vinculante 13.

Ela diz, de forma muito clara, que você não pode usar a máquina pública… o seu cargo… para empregar seus parentes. O seu cônjuge, seu filho, seu sobrinho.

É o básico. É a definição de impessoalidade. A ideia de que o Estado não é uma extensão da sua casa.

Mas e se… e se a própria corte que escreveu essa regra. A corte que deveria ser a guardiã final dessa decência… decidir que ela não vale para todo mundo?

E se o nepotismo, esse velho fantasma do patrimonialismo brasileiro, for convidado a voltar pela porta da frente… com a bênção do Supremo Tribunal Federal?

O que está acontecendo não é uma discussão técnica. É uma mensagem.

E a gente precisa entender que mensagem é essa.

Nos últimos tempos, o que temos visto são decisões… e reinterpretações… que criam uma distinção. Uma distinção perigosa.

A distinção entre o cargo “administrativo” e o cargo “político”.

A Súmula 13, nos dizem agora com mais clareza, foi feita para o cargo técnico. Para o chefe de departamento. Para o assessor de gabinete. Para a estrutura… administrativa.

Mas para o “alto escalão”… para os Ministérios, para as Secretarias de Estado… ah, aí, nos dizem, a regra é outra.

Aí, a regra se chama “confiança”.

O argumento é que um Presidente, um Governador, um Prefeito… precisa de pessoas de sua “absoluta confiança” para tocar um projeto político. E se essa pessoa, por acaso… for o irmão? O filho? A esposa?

Bom. Aparentemente, isso se tornou um detalhe menor.

Eu vivo em Novo Progresso, aqui no sul do Pará. Longe, muito longe dos gabinetes climatizados de Brasília.

Aqui, a gente entende de confiança.

Você confia no comerciante que te vende a prazo. Você confia no piloto que precisa pousar em uma pista de terra. A confiança, para nós, é um laço vital.

Mas quando a gente fala de Estado… “confiança” é uma palavra que deveria ser usada com extremo cuidado.

No marketing, a área que eu estudo e ensino, a gente aprende rápido que “confiança” não é um sentimento vago. Confiança é o resultado de uma promessa cumprida.

A promessa fundamental da República é a impessoalidade.

A promessa é que o seu sobrenome… não importa. O que importa é a sua capacidade. O que importa é o interesse público.

Quando o STF decide que, para cargos “políticos”, o critério da confiança pessoal se sobrepõe à vedação ao nepotismo… ele não está fazendo uma análise jurídica.

Ele está trocando a promessa.

Ele está nos dizendo que o Brasil ainda opera em dois níveis.

O nível dos de baixo… o seu nível. Onde você precisa de concurso público, de processo seletivo, de currículo. Onde a lei é dura.

E o nível dos de cima. A classe dos “notáveis”. Onde a lealdade ao projeto de poder… ou o laço de sangue… vale mais que a competência. Onde o que vale é ser “de confiança”.

Isso tem um nome. E não é “governabilidade”. É patrimonialismo.

É a velha ideia de que o “público” e o “privado” se misturam. A ideia de que o cargo pertence ao político, e não ao povo.

A Súmula 13 era um dique. Frágil, mas era um dique contra esse mar de velhas práticas.

E o que o Supremo fez… foi chutar uma pedra nesse dique. Abrindo uma rachadura. E todos nós sabemos o que acontece com diques que começam a rachar.

A água suja do fisiologismo, do “toma lá, dá cá”, do emprego para o aliado… e agora, para o parente… encontra o caminho.

Então, quando você ler a manchete, “Nepotismo aprovado no STF”, entenda o que isso significa.

Não, eles não rasgaram a lei publicamente. Foi mais sutil.

Eles apenas “normalizaram” a exceção.

Eles pegaram a regra… e disseram que ela não se aplica aos jogadores mais importantes. Criaram um “clube VIP” jurídico, onde as regras de decência que valem para a sociedade comum… são suspensas.

Venderam para a gente, durante anos, a ideia de “impessoalidade”. Mas na hora de aplicar… nos entregaram uma “exceção” para os amigos do rei.

Ou, nesse caso, para os parentes.

Isso não é sobre direita ou esquerda. Isso é sobre a própria fundação do país. É sobre decidir se somos uma República de verdade… ou se ainda somos uma grande Capitania Hereditária.

A questão que fica, e que eu me faço toda noite olhando daqui, do coração do Brasil… longe daquele domo de mármore… é simples.

Se a regra mais básica de moralidade pública pode ser flexibilizada para os de cima… que confiança a gente pode ter em qualquer regra que eles aplicam sobre nós, os de baixo?

Mas me diz você.

O que você sente quando vê esse tipo de “interpretação” da lei?

Isso é justiça… ou é só a velha política de sempre, com um carimbo oficial?

Deixa sua reflexão aqui embaixo.

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