O que define uma República?
Não é o voto. Não são as leis, por si sós. É uma promessa. A promessa fundamental de que o Estado… a estrutura que nos governa… pertence a todos. E, portanto, não pertence a ninguém em particular.
É a garantia de que a máquina pública não pode ser usada para consagrar uma visão de mundo, uma ideologia, ou uma fé, acima de todas as outras.
Esta semana, em Brasília, essa promessa foi colocada em xeque.
A Câmara dos Deputados aprovou, em regime de urgência, a criação da “Bancada Cristã”.
Não uma “frente parlamentar”, como tantas que existem para debater temas. Mas uma “bancada”. Um órgão com espaço formal, com tempo de microfone pré-definido, com poder de voto no Colégio de Líderes.
O que pode parecer para alguns, como foi dito no plenário, “uma bênção”… é, na verdade, o desmanche silencioso de um pilar que nos impede de mergulhar na tirania da maioria.
E o mais perigoso é que isso está acontecendo diante dos nossos olhos, aplaudido como uma vitória moral, quando na verdade é uma profunda derrota institucional.
Pensa comigo.
O debate que ouvimos naquele plenário não foi um debate político comum. Foi a representação de duas visões de Brasil que não podem coexistir.
De um lado, a defesa do projeto. A ideia de que o Brasil é um país “religioso desde o nascimento” e que, portanto, essa religiosidade precisa ser “formalmente constituída” dentro do poder.
A lógica é simples: se a maioria é cristã, por que o Congresso não pode ter um órgão cristão oficial?
É aqui que a fronteira é cruzada.
Do outro lado, tivemos vozes que apontaram o óbvio. E o óbvio, hoje no Brasil, soa como uma heresia.
A deputada Talíria Petrone foi cirúrgica. Ela disse que o projeto é, primeiro, inconstitucional. E segundo, politicamente errado.
Vamos separar isso. É importante.
Inconstitucional porque fere o Artigo 19 da Constituição. O Estado Laico.
E o que é o Estado Laico?
Eu vivo aqui em Novo Progresso, no Pará. Uma cidade que nasceu na beira de uma estrada, no meio do conflito. Aqui, nós entendemos de fronteiras. Entendemos que para a convivência ser possível, certas cercas precisam estar muito bem definidas.
A fronteira entre o público e o privado. A fronteira entre o meu e o seu.
O Estado Laico é a cerca mais importante de uma democracia.
Ele não é, como alguns gritaram, um “Estado ateu”. O Estado ateu, como na China, persegue a fé. O Estado Laico faz o exato oposto: ele protege a fé.
Ele protege todas elas.
Como ele faz isso? Sendo neutro. O Estado Laico é a garantia de que o governo não pode usar seu poder, seu dinheiro, sua estrutura, para “privilegiar qualquer religião”.
Quando você cria uma “Bancada Cristã”, com poder institucional… você está usando a estrutura do Estado para privilegiar uma fé.
A pergunta que ecoou no plenário foi: “vamos ter aqui a bancada das religiões de matriz africana?”. “A bancada do budismo?”. “A bancada judaica?”.
A resposta é, obviamente, não.
E ao institucionalizar uma… e não todas… você não está celebrando a fé. Você está oficializando o privilégio.
Mas o segundo ponto, o “politicamente errado”, é talvez o mais revelador.
Por que existem bancadas como a feminina, ou a bancada negra?
Elas existem, como foi dito, “como forma de reparação”. Elas existem porque são setores da sociedade que estão sub-representados. São vozes que, historicamente, foram silenciadas e precisam de um mecanismo para garantir que sejam ouvidas.
Agora, me diga você. Os cristãos estão sub-representados no Congresso Nacional?
A resposta é óbvia. Eles não são perseguidos. Eles têm voz em todas as comissões. Em todos os partidos. Eles definem e impedem projetos.
Esta nova bancada não é um ato de reparação. É um ato de consolidação de poder. É dar mais força a quem já tem a força.
E isso nos leva ao verdadeiro coração do problema.
Quando a política deixa de ser sobre o bem comum… e passa a ser sobre a minha fé contra a sua… o diálogo morre.
A retórica usada foi assustadora.
Um deputado, em defesa da bancada, chegou a dizer que, se os opositores quisessem, que “criem a bancada do demônio se for o caso”.
Você percebe o que isso significa?
O opositor político não é mais alguém que discorda de mim. Ele não é alguém com uma visão de mundo diferente. Ele é… o demônio.
Quando o debate político vira uma guerra santa… a política acaba. O que sobra é o fundamentalismo.
O Estado é capturado pelo interesse religioso.
E o resultado? Votação encerrada. 398 votos a favor. A urgência foi aprovada.
O que foi votado ali não é uma mera formalidade. Foi a abertura de uma Caixa de Pandora.
Hoje, se privilegia uma denominação. Amanhã, se persegue outra.
Eu, como professor de marketing, passo meus dias estudando narrativas. Estudando como as mensagens são construídas para mover as pessoas.
E a narrativa construída ali é poderosa. É a narrativa do “nós contra eles”. Do “bem contra o mal”. Da “família” contra… o demônio.
É uma narrativa que não busca o consenso. Busca a aniquilação do outro.
O Estado Laico, criticado no debate como uma relíquia “da Revolução Francesa”… não é um ataque à religião.
Ele é a única garantia da liberdade religiosa.
Inclusive, a liberdade daqueles que votaram “sim”.
Eles só podem professar sua fé publicamente, só podem ter suas igrejas e seus templos, porque o Estado os protege. O Estado os protege de que outro grupo, talvez maior amanhã, decida que a fé deles é a errada.
O que estamos vendo é o início de um canibalismo institucional.
O argumento final foi que “o estado brasileiro ele é laico, não é ateu”.
É verdade.
Mas ao institucionalizar uma bancada baseada em dogma, o Estado deixa de ser laico… e se torna missionário.
E um Estado missionário é, por definição, um Estado que exclui.
A política deve ser o espaço do “nós”. O espaço de todos. O espaço do que é comum. A fé… a fé é o espaço do “eu”. Da minha consciência. Da minha salvação.
Quando uma se mistura com a outra, perdemos as duas. Perdemos a política, que vira cruzada. E perdemos a fé, que vira instrumento de poder.
Mas me diz você.
Aqui, de Novo Progresso, eu vejo um Brasil de muitas fés, e de nenhuma fé. E todos são brasileiros.
O que acontece… quando a fé de um… vira a lei para todos?
Pensa comigo. E me conta aqui nos comentários o que você sentiu ouvindo isso.