A notícia surge. Como sempre surge.
“Bolsonaro preso”.
Para metade do país, é justiça. O fim de um ciclo. Um alívio.
Para a outra metade, é perseguição. O início de uma caçada. A prova de um sistema corrompido.
No outro lado da rua… Lula está solto.
Está no poder.
E, segundo o que lemos, já articula… mais quatro anos.
E no meio disso tudo…
…estamos nós. Você. Eu.
A sensação que fica, para muitos, não é de vitória. Não é de justiça. Nem de alívio.
É de exaustão.
Nós nos livramos de um… doido. Como dizem por aí.
Mas o outro, que colocamos no lugar, quer ficar.
E a pergunta que fica ecoando, aqui da minha varanda no Pará, enquanto tomo este café… é uma pergunta incômoda.
Nós trocamos um problema pelo o quê, exatamente?
E se a verdadeira prisão não for a de um ex-presidente… mas a nossa?
Presos… a um roteiro que nós não sabemos mais como mudar.
Pensa comigo.
Minha área é o marketing digital. Eu estudo como narrativas são construídas, como marcas são vendidas e como o público… consome ideias.
E há anos, o Brasil consome, vorazmente, dois produtos principais.
O produto “Bolsonaro” e o produto “Lula”.
Quando a justiça age, seja para prender ou para soltar qualquer um dos dois, ela não está apenas aplicando a lei.
Ela está… mexendo na embalagem desses produtos.
A prisão de Lula, anos atrás, não o destruiu. Pelo contrário.
Do ponto de vista do marketing, ela foi o elemento que faltava. Ela o transformou de político em mártir. Ela criou o arco de redenção. A narrativa do “herói injustiçado que retorna para salvar a todos”.
É uma história poderosa. Quase mitológica.
Agora, vamos inverter o tabuleiro.
Uma eventual prisão de Bolsonaro… que efeito ela teria?
Ela encerraria o ciclo do “Bolsonarismo”?
Ou ela apenas alimentaria a fogueira? Ela criaria o mártir da direita? O “guerreiro perseguido pelo sistema” que agora sofre as consequências por ter ousado desafiar a todos?
A justiça opera. Mas o marketing… também opera.
E o marketing da vitimização é o mais eficiente que existe.
O problema é que, enquanto assistimos a esse espetáculo… a esse “justiçamento” que mais parece um episódio de série… o outro lado do problema se solidifica.
A promessa implícita da última eleição não era uma revolução.
Era… um respiro.
Era a volta da previsibilidade. A volta do diálogo. O fim do “nós contra eles”.
Mas o que estamos vendo, o que a notícia de “mais quatro anos” sugere, não é um governo de transição.
Não é um governo de “reconstrução nacional”.
É a articulação de um projeto de permanência.
A máquina não parou para manutenção, como muitos esperavam.
Ela só trocou o piloto… e parece querer acelerar no mesmo rumo.
Aqui do Pará, a gente observa Brasília como quem olha para um aquário distante. Um aquário que, infelizmente, decide a temperatura da nossa água.
E a água continua fervendo.
Sabe, o “drama da vida”, o meu e o seu, não é sobre quem está na cadeira presidencial.
O nosso drama é o preço do açaí na feira. É a qualidade da internet para poder trabalhar. É a segurança do nossos filhos na escola.
E o marketing digital, a minha área… que deveria ser sobre conectar pessoas a soluções, sobre facilitar a vida… foi sequestrado.
Ele foi sequestrado pela política da indignação.
O algoritmo, seja do Instagram, do X, ou do YouTube, não foi desenhado para que você se informe.
Ele foi desenhado para que você… odeie o outro lado.
Porque o ódio engaja mais que a esperança.
A indignação gera mais clique do que a concordância.
O custo disso… nós sabemos qual é.
É a nossa saúde mental.
É o churrasco de domingo que acabou, porque o tio e o sobrinho não podem mais sentar na mesma mesa.
É a amizade de infância que foi desfeita por causa de um post.
Nós nos tornamos… consumidores de raiva.
E esses dois homens, Bolsonaro e Lula, são os fornecedores mais eficientes do mercado.
O “doido” A (Bolsonaro) vendia a quebra total. O caos como método. A ruptura.
O “doido” B (Lula) vendia a restauração. A nostalgia de um tempo que talvez nem tenha existido exatamente daquela forma.
Mas ambos exigem a mesma coisa de nós: lealdade absoluta.
Eles não vendem um plano de governo. Eles vendem uma identidade.
Você não apoia um. Você é um.
Você é “petista”. Você é “bolsonarista”.
E a pergunta que eu me faço, como professor, como paraense, é:
Onde fica quem é apenas… brasileiro?
Onde fica a empreendedora de Novo Progresso, o estudante da UFPA em Belém, o pai de família em Santarém?
O “doido” que saiu era imprevisível. O “doido” que entrou… parece previsível demais. Tão previsível que já mira um futuro onde ele, ou quem ele indicar, permaneça.
É como ir a um restaurante que só tem dois pratos no cardápio.
E ambos… te fazem mal.
Mas você tem que comer. Você é obrigado a escolher.
Então, você escolhe o que acha que vai te fazer menos mal.
E o dono do restaurante… fica mais rico.
E ele já avisa: ano que vem… o cardápio será o mesmo.
Então, sim.
Respondendo à pergunta inicial. Nós estamos presos.
Mas nós não estamos presos entre Lula e Bolsonaro.
Nós estamos presos… na ideia de que precisamos de um salvador.
Estamos presos na ideia de que a solução para o Brasil é um CPF.
Seja o “mito”, seja o “pai dos pobres”.
A prisão de um… ou a liberdade contínua do outro… não muda o roteiro.
Porque nós continuamos escalando eles para os mesmos papéis. O marketing deles funciona tão bem porque ele apela para essa nossa necessidade quase infantil de ter um herói, de ter alguém para culpar, e de ter alguém para aplaudir.
A verdadeira prisão não é um complexo penitenciário em Curitiba ou em Brasília.
É a nossa imaginação política.
A armadilha mortal é acreditar que a solução para os problemas reais, complexos, do nosso país… se resume a qual desses dois nomes estará na urna.
Nós nos livramos de um.
E o outro, que voltou, agora quer garantir a própria sucessão.
O ciclo não se quebrou.
Ele apenas… trocou de fase.
A questão, portanto, não é “quem será o próximo?”.
A questão é: “quando nós vamos parar de assistir a esse filme… e começar a exigir um roteiro diferente?”.
O que precisa acontecer para o Brasil deixar de ser o drama pessoal desses dois homens… e voltar a ser o projeto coletivo de duzentos milhões de pessoas?
Mas essa… essa é só a minha análise, aqui do Pará.
Eu quero muito saber de você.
Você também se sente cansado desse roteiro? Dessa briga que parece não ter fim?
E o mais importante…
Como você acha que a gente sai desse looping?
Coloca aqui nos comentários. Vamos conversar.