Você conhece essa pessoa.
Talvez ela trabalhe com você. Talvez ela esteja na sua família. Ou talvez… ela já tenha sido você em algum momento.
É aquela figura que se move pelo mundo com uma certeza… inabalável. Alguém que julga a incompetência alheia com uma autoridade quase divina. Ele tem a solução para todos os problemas do escritório. Ele sabe exatamente o que o governo deveria fazer. Ele olha para os erros dos outros com uma espécie de… desprezo condescendente.
Ele é o super-herói da própria história.
Mas… e se ele for, na verdade, o único que não percebe a própria… inadequação?
E se essa capa de super-herói que ele veste não for tecida com poder, mas sim com proteção?
Pensa comigo. Esse arquétipo não nasce do nada. Ele é construído. Ele é fabricado.
Muitas vezes, ele é o “filho do dono”, literal ou metaforicamente. É a criança que nunca ouviu um “não” que realmente doesse. É o jovem adulto cujos erros foram sistematicamente limpos por outra pessoa… pais, dinheiro, privilégio, assessores.
Cada pequeno sucesso, por mais medíocre que fosse, foi aplaudido como genialidade. Cada fracasso, cada esbarrão com a realidade, foi rapidamente recontextualizado como “injustiça”, “falta de sorte” ou, o mais comum… “culpa de terceiros”.
O resultado?
Você cria um adulto que vive dentro de uma estufa.
É uma metáfora poderosa. Lá dentro da estufa, o ar é controlado, a temperatura é perfeita, a irrigação é automática. Lá dentro, ele cresce e se torna uma orquídea magnífica, simétrica, impecável.
E dessa estufa, ele olha pela vidraça.
Lá fora, ele vê as outras plantas. Ele vê o que ele chama de “ervas daninhas”, lutando contra o vento, a seca, a geada, os insetos. E ele as julga.
“Como são fracas”, ele pensa. “Como são incompetentes. Como podem ser tão… feias e retorcidas? Se elas ao menos se esforçassem como eu…”
Ele não entende… que elas são fortes precisamente porque enfrentam a tempestade. E que ele é fraco precisamente porque só conhece a estufa.
A sua “super-proteção” é a fonte da sua “burrice”.
E aqui, não uso “burrice” no sentido de falta de QI. Muitas vezes, ele é academicamente inteligente. Falo de uma burrice muito mais profunda: uma ignorância fundamental sobre como o mundo real funciona. Uma cegueira sobre a própria fragilidade.
Ele nunca precisou negociar. Ele nunca precisou ter resiliência. Ele nunca foi obrigado pela vida a olhar para o próprio reflexo no espelho depois de uma falha catastrófica e perguntar: “onde eu errei?”.
Essa pergunta… “onde eu errei?”… simplesmente não existe no vocabulário dele.
E é aqui… que Fiódor Dostoiévski entra na sala.
Em seu romance mais famoso, “Crime e Castigo”, o protagonista, Raskólnikov, é um jovem estudante brilhante. Mas ele é pobre. E ele desenvolve uma teoria.
Ele rascunha um artigo onde divide o mundo em dois tipos de pessoas: as “ordinárias” e as “extraordinárias”.
As ordinárias são a massa. O rebanho. Pessoas que existem apenas para obedecer à lei e para… reproduzir.
Mas os extraordinários… ah, esses são os Napoleões. Os grandes legisladores da humanidade. Pessoas que têm o direito, e talvez até o dever moral, de transgredir. De passar por cima das regras, de pisar nos outros, de… até mesmo… matar, se for para alcançar um objetivo maior.
Raskólnikov, claro, se vê como um “extraordinário”. Ele acredita que sua inteligência o coloca acima da moralidade comum.
O nosso “filho super-herói” protegido é um Raskólnikov de apartamento.
Ele não chega a cometer um crime com um machado (felizmente). Mas o mecanismo mental é rigorosamente o mesmo.
Ele se vê como “extraordinário”.
Ele acredita que as regras que se aplicam aos outros – a necessidade de ser humilde, de ouvir, de colaborar, de admitir o erro, de esperar na fila – não se aplicam a ele.
Por quê?
Porque ele nunca enfrentou a punição do erro.
O Raskólnikov de Dostoiévski, pelo menos, teve que enfrentar as consequências terríveis de seu ato. Ele teve que confrontar o peso esmagador da culpa, o suor frio, a paranoia. A realidade quebrou a teoria dele.
Mas o nosso super-herói protegido?
A “velha senhora” que Raskólnikov precisou matar para testar sua teoria… para o nosso herói, essa velha senhora (a dificuldade, o fracasso, a consequência) foi morta por seus protetores antes que ele sequer a encontrasse.
Ele vive num mundo onde sua teoria sobre si mesmo nunca é posta à prova.
Ele julga todos como incompetentes porque, na realidade fabricada para ele, ele realmente é o único que sempre vence. Ele não percebe que o jogo está com cartas marcadas.
A verdadeira tragédia desse super-herói não é, no fim das contas, a sua arrogância. É a sua solidão.
Dostoiévski nos mostra, de forma magistral, que a redenção de Raskólnikov não vem de sua teoria… mas de sua confissão.
Vem do seu contato com a humanidade real, na figura frágil e compassiva de Sônia. Vem do momento em que ele finalmente desaba e admite: “Eu não sou extraordinário. Eu sou… apenas humano. Eu sou um piolho.”
O nosso “filho protegido” não tem essa chance.
Ele está preso na sua própria torre de marfim, no alto do seu castelo, julgando os “incompetentes” lá embaixo, sem jamais perceber que a verdadeira competência… é saber cair.
É saber ralar o joelho. É saber pedir desculpas.
É entender, de forma visceral, que você não é o centro do universo.
A “burrice” dele, no fim, é a incapacidade de se conectar. Ele é um herói sem causa, porque a única causa que ele realmente conhece… é ele mesmo.
E um herói que só serve a si mesmo… não é um herói. É um prisioneiro.
E isso me faz pensar… em todos nós.
Em que momentos, talvez pequenos, nós também não somos esse super-herói? Em que áreas da nossa vida nós construímos uma pequena estufa e julgamos quem está lá fora, no frio?
Onde está o nosso ponto cego, protegido por nosso próprio orgulho?
Mas eu quero saber de você.
Você já lidou diretamente com alguém assim, que parecia viver numa realidade paralela de auto-engrandecimento?
Ou… e seja honesto… você já se pegou sendo essa pessoa? E como você saiu disso?
Me conta aqui nos comentários.